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Com Bukowski na manhã cinzenta

Publicando no jornal O Dia, na edição dos dias 19 e 20 de janeiro de 2018

19/01/2019 08:38

A manhã espichava-se preguiçosamente como uma jiboia saciada. Uma manhã cinzenta, dessas que, se não tivessem acontecido, não fariam a menor falta. Ao meio-dia, dirigi-me a uma agência da Caixa para receber os caraminguás a que tenho direito como inválido da pátria. Com ensaiada displicência, a atendente deu-me uma senha onde figurava a letra P, de “prioridade”.Na verdade, uma forma de nos lembrar que já engrossamos o cordão dos incômodos, dos inservíveis para as atividades rentáveis. Vão um pouco além: responsabilizam-nos pelo “rombo na Previdência”.

Senha 554, um número idiota como outro qualquer. Havia umas doze pessoas à minha frente. Nenhum problema: já não tenho mais saúde para ter pressa. Não bastasse isso, estava na melhor da piores companhias Charles Bukowski, o “velho safado” ,que conta e reconta sempre as mesmas histórias, com os mesmos personagens sórdidos(bêbados, perdedores e deserdados em geral) e, a despeito disso, nos prende e fascina. Encontrei uma cadeira sossegada e  luz adequada. Mergulhei nas desventuras do velho Chinaski e deixei que a manhã seguisse o seu curso...

Tão absorvido estava na leitura que nem percebi quando o painel eletrônico chamou a minha senha. Foi aí que uma jovem, que eu nunca vira menos bonita, virou-se para mim e, com um sorriso de acender manhãs, perguntou: “Professor, não seria a sua senha?”. Era. Um tantinho envergonhado, agradeci-lhe e dirigi-me ao caixa. Enquanto caminhava, uma pergunta me verrumava o juízo: como aquela bela jovem, sentada à minha frente, poderia saber o número da minha senha se o papelzinho estava no meu bolso? Recorri ao Bukowski: “As mulheres são seres especiais, compostos de curiosidade, intuição e encanto, por isso são perigosas”. Com o sorriso da jovem alumiando a manhã, saí da Caixa quase feliz...           

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