Retrospectiva 2021: inflação foi um dos grandes vilões da economia

Entre os fatores desfavoráveis para uma inflação elevada em 2021, temos as altas nas taxas de juros, o alto endividamento das famílias, o desemprego, a escassez de insumos e matérias-primas e os custos de energia em elevação

27/12/2021 13:46h - Atualizado em 27/12/2021 14:05h

Compartilhar no

O ano não foi fácil. A inflação afetou os piauienses das mais diferentes maneiras, mas sempre elevando preços e prejudicando o orçamento familiar no final do mês. Entre os fatores desfavoráveis para uma inflação elevada em 2021, temos as altas nas taxas de juros, o alto endividamento das famílias, o desemprego, a escassez de insumos e matérias-primas e os custos de energia em elevação. Além disso, ainda vivemos de forma intensa as incertezas sobre a pandemia e o medo de algum retrocesso, como a descoberta de variantes, como a mais recente ômicrom.

Para a Confederação Nacional da Indústria (CNI), em 2021, houve expectativa de alta de 4,7% na atividade econômica - valor menor do que o esperado no início do ano, devido às constantes quedas na indústria ocorridas no segundo semestre. Pelo menos a previsão da CNI é de saldo comercial positivo em 2021, de US$ 58,9 bilhões, alta de 16,9% em relação à 2020. Segundo ela, as exportações são puxadas majoritariamente pelos preços, sobretudo de commodities, enquanto as importações mostram crescimento generalizado em volume.

Foto: Arquivo/ODIA

Um grande problema da inflação é que ela afeta os mais pobres. De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), ainda que tenha ocorrido desaceleração em novembro, a inflação acumulada nos 12 meses para as famílias que recebem menos de R$ 1.808,79 atingiu 11%, o que significa um percentual maior que o das famílias que ganham mais de R$ 17.764,49, que alcançaram 9,7% na inflação acumulada em 12 meses. Transporte e habitação foram os grupos que mais contribuíram para a alta inflacionária das famílias de todas as faixas de renda.

Os reajustes da energia elétrica (31,9%) e do gás de botijão (38,9%), aliados à alta dos alimentos no domicílio (9,7%), explicam o comportamento da inflação em 12 meses para as classes de menor renda, os aumentos dos combustíveis (52,8%), das passagens aéreas (36,6%) e dos serviços de recreação (8,6%) contribuíram fortemente para a pressão inflacionária nas faixas de renda mais alta - divulgou o Ipea.

Foto: Arquivo/ODIA 

No Brasil, a atividade econômica desacelerou ao longo do terceiro trimestre de 2021, decorrente do desempenho da indústria e do comércio, e houve estabilização dos indicadores de produção agropecuária.

Pelo menos a Confederação Nacional da Indústria (CNI) projeta crescimento de 1,2% para a economia brasileira em 2022, a partir da “superação parcial de problemas conjunturais, como inflação, emprego e normalização das cadeias globais de valor a partir do segundo semestre do ano”. A previsão está no documento Economia Brasileira: 2021-2022, divulgado no dia 15 de dezembro, em Brasília.

Já em um cenário mais pessimista, a previsão é de expansão do Produto Interno Bruto (PIB, soma dos bens e serviços produzidos no país) em 0,3% em 2022. No cenário otimista, o Brasil crescerá 1,8%.

Imprevistos na economia

O economista Fernando Galvão lembra do "Cisne Negro", um conceito criado pelo filósofo e escritor Nassim Taleb que se associa a crise aleatórias, imprevisíveis, e a pandemia foi um exemplo. "Ninguém imaginava que entraríamos nesse ciclo em 2020 e 2021, então pegou todo mundo desprevenido: pessoas, governos e empresas. E os governos precisaram de fato estar adotando medidas com muitas tentativas e erros", explicou o economista, completando que estamos muito conectados.

Ele lembra que por ser um vírus muito transmissível, derrubou a atividade econômica global, porque derrubou fluxos de negócios e fluxos de pessoas circulando. 


"Mas é interessante porque houve uma corrida em tempo recorde de compartilhação, de colaboração e de criatividade, conseguimos em menos de um ano desenvolver uns tipos de vacina para combater esse vírus. Essa pandemia reage a eventos, e isso faz com que o vírus circule mais ou menos; nos momentos de restrição, os níveis de morte não foram maiores porque o evento das restrições ocorreram", falou Fernando, lembrando que a vacinação fez com que o mercado se abrisse um pouco mais.


Foto: Jailson Soares/ODIA 

"Essa incerteza com relação às variantes torna mais lenta a recuperação que a gente espera ser de pós pandemia no mundo todo, e no Brasil temos os agravantes de uma série de crises políticas, dificuldades na gestão da crise, governos não trabalhando de forma colaborativa, isso tudo vai repercutir num país de desemprego em alta, de grande inflação - tudo que é ruim lá fora, quando reflete aqui, tem indicadores mais severos e afetando a qualidade de vida das pessoas", detalhou.

Fernando explicou ainda que temos uma inflação gerada pelo preço de dólar caro, e isso está acontecendo no mundo todo. Mas volta a dizer, quando a gente olha pro Brasil, os indicadores são mais severos por conta dessa panela de pressão que nós nos tornamos. Então vamos ter uma inflação descontrolada, atingindo a renda de grande parte da população que tem seus níveis de vida reduzidos, dólar caro em que tudo que é importado fica mais caro. E por exemplo, quando a gente compra o combustível mais caro do exterior, isso acaba contaminando os outros preços de atividades econômicas que não tem relação com o dólar, também temos uma crise hídrica que afetou o preço da energia; e tudo isso em um momento de grande desemprego, um momento de fato que a renda do brasileiro está sendo atacada por diversos pontos", concluiu o economista. 

Gás de cozinha

O piauiense tem pagado mais caro pelo gás de cozinha que consome. A Petrobras anunciou, somente esse ano, mais de cinco aumentos no preço médio do Gás Liquefeito de Petróleo, o GLP, usado nas cozinhas brasileiras.

"Existe um ponto que é interessante a gente se perguntar: o cálculo da Petrobras é em cima do dólar e do barril de petróleo, quando aumenta lá fora, eles aumentam aqui para nós. Outro ponto: os três últimos reajustes aumentaram gás, diesel e gasolina, e aí o que acontece? A gente vê muito uma flutuação do diesel e da gasolina, mas com o gás você não ver isso. A população precisa cobrar da Petrobras porque quando aumenta lá, eles aumentam aqui, mas quando baixam, não baixam os preços aqui?", questionou Valtercides Filho, presidente do Sindicato dos Revendedores de GLP do Piauí.

"Qual foi a última vez que o gás baixou? Foi quando o governo tirou o imposto numa quinta, e na próxima semana aumentaram. Ficamos no prejuízo com um aumento de R$5 e os clientes viram na televisão só a redução, não viram o aumento do ICMS do Estado e da distribuidora", explicou o presidente. "O cliente acaba achando que somos nós que não queremos baixar o valor. Já foi mais de 100% de aumento, e não repassamos ele pro cliente. No meu caso específico, o gás valia de R$70 a R$75 no começo da pandemia, e hoje eu vendo o gás a R$110, mas isso porque não repasso todos os reajustes, estamos em déficit, porque se eu aumentar na mesma proporção do aumento, a população não vai ter como comprar", explica Valtercides. "98,36% de reajuste desde maio do ano passado até hoje, e isso não foi repassado", concluiu

O presidente do Sindigás lembra ainda que no interior do Piauí o gás é ainda mais caro, devido toda a logística de transporte do mesmo. “O gás que recebemos aqui na capital, vem de São Luís e Fortaleza. O gás vem para Teresina e daqui vai para o interior. Então, o revendedor tem o custo de transporte”, explica.

De acordo com a Petrobrás, o preço do GLP vendido às distribuidoras tem como base o preço de paridade de importação, que é formado pelas cotações internacionais destes produtos mais os custos que os importadores teriam, como transporte e taxas portuárias.

O preço do gás de cozinha é melhor que o gás para uso industrial e comercial e o valor de venda às distribuidoras não é o único fato determinante do preço final ao consumidor. “Como a lei brasileira garante liberdade de preços no mercado de combustíveis e derivados, as revisões feitas pela Petrobras podem ou não se refletir no preço final, que incorpora tributos e repasses dos demais agentes do setor de comercialização, como distribuidores e revendedores”, explica a estatal.

Gasolina

Uma pesquisa afirma que Teresina é a capital com a gasolina mais cara do Nordeste, com o preço médio de R$ 6,47, de acordo com pesquisa do Sistema de Levantamento de Preços da Agência Nacional do Petróleo (ANP). Durante a pesquisa, realizada em agosto, o valor do combustível na capital piauiense era R$ 0,30 mais caro que Maceió (AL), segundo lugar no ranking. Para escapar do preço alto, os teresinenses têm buscado por promoções e tentado economizar cada centavo. 

Para chegar ao preço médio, o levantamento consultou 41 postos de combustíveis entre os dias 22 e 28 de agosto. No caso da gasolina aditivada, o preço médio sobe para R$ 6,683, que faz com que a capital também tenha a diferença mais alta entre as duas gasolinas. Em cima do valor da Petrobras, é incluído ainda o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), que, segundo levantamento da Federação Nacional do Comércio de Combustíveis e de Lubrificantes (Fecombustíveis), equivale a 30% do preço final do produto no Piauí, ficando atrás apenas do Rio de Janeiro, onde são cobrados 34%.

Foto: Arquivo/ODIA

Em dezembro, o preço médio de venda da gasolina da Petrobras para as distribuidoras passará de R$ 3,19 para R$ 3,09 por litro, uma redução média de R$ 0,10 por litro, anunciou no dia 14 a empresa. “Considerando a mistura obrigatória de 27% de etanol anidro e 73% de gasolina A para a composição da gasolina comercializada nos postos, a parcela da Petrobras no preço da gasolina na bomba passará a ser de R$ 2,26 a cada litro em média. Uma redução de R$ 0,07”, informou, em nota, a companhia.

No Piauí, o Sindicato dos Postos Revendedores de Combustíveis do Estado do Piauí (Sindipostos) afirma que esta mudança é um "impacto irrisório". Ou seja, não afeta o preço final para o consumidor.

Ensino privado investiu em tecnologia em 2021

Um dos valores afetados pela inflação em 2021 foram as mensalidades escolares. Mesmo com pouco reajustes em 2021, a inflação apareceu, e agora se tornou uma bola de neve para o próximo ano.

"O que impactou é que tivemos uma inflação mais alta no ano de 2021. Nesse período, quase nenhuma escola reajustou o valor da sua mensalidade. Esse ano, infelizmente, tivemos uma inflação alta em torno de 10% e iremos fazer essa reposição. Cabe cada escola de acordo com a sua planilha definir o valor da sua mensalidade. Então vai ficar nessa média de 10%”, disse o presidente do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino (Sinepe), Leonardo Airton, em entrevista à O Dia TV.

Leonardo também fez um balanço do ano letivo e das dificuldades enfrentadas pelos alunos e professores. Segundo ele, o investimento em tecnologia atendeu os critérios exigidos por órgãos fiscalizadores e proporcionou o retorno gradual às salas de aula. 

“Foi um ano muito difícil, um ano de superação. Nós buscamos investir em tecnologia e segurança para atender todos os critérios exigidos pelos órgãos fiscalizadores. Foi um ano de reinvenção porque a partir do segundo semestre colocamos alunos na sala de aula, não em sua totalidade por causa da pandemia. Com isso, buscamos dar segurança e todo o aparato tecnológico para que o aluno se sentisse bem assim como o professor para manter o ensino com qualidade”, disse.

Já à nível municipal, o ano foi de transtornos, que os vereadores chegaram a definir como :“Um triste quadro de descaso”. Insatisfeitos, os professores cobram o pagamento do abono-fundeb, gratificação que está sendo concedida em praticamente todos os estados do país. Referência na educação brasileira e o melhor ensino fundamental entre as capitais até o ano passado, Teresina passa por um momento difícil. De acordo com representantes dos professores o ano letivo pode nem terminar na capital. Caso não haja acordo entre a classe e Dr. Pessoa, professores ameaçam não finalizar a entrega de notas e o fechamento das atividades curriculares de 2021.

Em resposta a Secretaria Municipal de Educação afirmou já gastar acima do mínimo obrigatório do Fundeb com o pagamento salarial dos professores. O secretário de Educação de Teresina, Nouga Cardoso, informou que a Prefeitura de Teresina já usou cerca de 74% dos recursos do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb) para pagamento de servidores da capital, conforme informou a secretaria Municipal de Finanças (SEMF). A lei estabelece que os gastos sejam de, no mínimo, 70% no pagamento de pessoal. 

Auxílio e desemprego

Outro fator que influenciou as contas foi o benefício médio de R$ 217,18 do Auxílio Brasil, novo programa social criado pelo governo, que começou a ser pago em novembro. Com 17 milhões de famílias incorporadas, o Auxílio Brasil terá cerca de 2,5 milhões de famílias a mais que os 14,6 milhões atendidas pelo Bolsa Família. O novo programa social terá três benefícios básicos e seis suplementares, que podem ser adicionados caso o beneficiário arranje um emprego ou tenha um filho que se destaque em competições esportivas ou em competições científicas e acadêmicas.

O total de domicílios nos quais as pessoas recebiam outros programas sociais subiu de 0,7% para 23,7% de 2019 para 2020. O percentual representa 16,928 milhões domicílios que auferiam no ano passado este tipo de rendimento. O aumento foi notado em todas as regiões, mas os maiores percentuais foram no Norte, onde cresceu de 0,5% para 32,2%, e no Nordeste, que saiu de 0,8% para 34%. Os dados fazem parte da pesquisa Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios - Pnad Contínua 2020: Rendimento de todas as fontes, divulgada hoje (19), no Rio de Janeiro, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Outro fator importante na economia foi o número de empregados com carteira de trabalho assinada no setor privado, sem contar os trabalhadores domésticos, que atingiu o número de 33,5 milhões de pessoas no terceiro trimestre de 2021. Esse total representa um avanço de 4,4% , ou mais 1,4 milhão de pessoas, na comparação com o período anterior e de 8,6% ou mais 2,7 milhões de pessoas em relação a 2020. Os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), foram divulgados em dezembro pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Foto: Arquivo/ODIA

Já no Piauí, pela primeira vez, o Estado atingiu a taxa de desemprego de 14,9%. Esta é a maior proporção já registrada desde 2012, quando o IBGE iniciou a PNAD. São consideradas desempregadas as pessoas com 14 anos ou mais de idade que estavam sem trabalho e procurando por uma ocupação. Os dados apontam que o Piauí vem em uma crescente no desemprego desde quarto trimestre de 2020, quando havia registrado o menor índice: 12%. De lá para cá, a taxa de desocupação no Estado subiu para 14,5% nos três primeiros meses de 2021 até atingir o patamar de 14,9% no segundo trimestre.

É permitida a reprodução deste conteúdo (matéria) desde que um link seja apontado para a fonte!

Compartilhar no

Deixe seu comentário


Notícias Relacionadas