A presença de jogadores investigados ou acusados de estupro na Copa do Mundo de 2026 voltou a provocar debate sobre os critérios adotados pela Federação Internacional de Futebol (Fifa) para autorizar a participação de atletas envolvidos em denúncias de violência sexual. Pelo menos cinco jogadores de quatro seleções chegaram ao torneio respondendo a investigações, processos ou acusações relacionadas ao crime.
Entre os casos que ganharam repercussão está o do atacante Ryan Mendes, capitão da seleção de Cabo Verde. O jogador é investigado pela polícia da Nova Zelândia após uma brasileira denunciar ter sido vítima de estupro em um hotel de Auckland durante o período em que a equipe realizava amistosos no país.
Mesmo após a abertura da investigação, Ryan Mendes disputou as três partidas da fase de grupos da Copa do Mundo e permaneceu à disposição da seleção cabo-verdiana para o confronto das oitavas de final contra a Argentina.
Em nota, a Fifa afirmou que trata “com a máxima seriedade qualquer denúncia de conduta imprópria” e informou que mantém contato com as autoridades da Nova Zelândia. A entidade, porém, disse que não comenta investigações em andamento nem confirma a existência de procedimentos internos.
Por que os jogadores ainda podem participar da Copa?
A participação dos atletas ocorre porque a Fifa não possui uma regra geral que impeça automaticamente a inscrição de jogadores apenas por responderem a acusações criminais ou processos judiciais.
Segundo a entidade, cabe às federações nacionais convocar os atletas. Na ausência de uma suspensão disciplinar imposta pela própria Fifa ou de uma decisão judicial que impeça o exercício da profissão, o jogador continua elegível para disputar partidas oficiais.
Esse entendimento se baseia no princípio da presunção de inocência adotado em diversos sistemas jurídicos. Assim, investigações ou denúncias, por si só, não impedem a atuação profissional do atleta enquanto não houver uma medida legal ou disciplinar que determine o contrário.
Conheça os casos
Além de Ryan Mendes, outros quatro jogadores que participaram da Copa estiveram envolvidos em investigações ou processos por violência sexual.
O japonês Junya Ito foi acusado por duas mulheres de abuso sexual em 2024. O Ministério Público do Japão decidiu não apresentar denúncia contra o jogador por falta de provas. As acusadoras também não foram processadas.
Também do Japão, Kaishu Sano chegou a ser preso após uma acusação de agressão sexual em Tóquio. O processo foi encerrado sem condenação, permitindo que o volante retomasse a carreira e voltasse a defender a seleção japonesa. Em 2025, ele pediu desculpas publicamente pelo episódio.
“Peço sinceras desculpas por ter causado transtornos e preocupações a tantas pessoas por causa das minhas ações”, afirmou o atleta em comunicado divulgado após seu retorno à equipe nacional.
Outro nome de destaque é o lateral marroquino Achraf Hakimi. O jogador do Paris Saint-Germain foi acusado de estupro por uma mulher de 24 anos, em 2023, na França. Hakimi nega as acusações, mas teve negado o pedido de arquivamento do caso e responderá a julgamento na Justiça francesa.
Já o volante ganês Thomas Partey enfrenta sete acusações de estupro e agressão sexual no Reino Unido. Durante a Copa, ele sequer conseguiu estrear pela seleção porque teve o visto de entrada negado pelas autoridades canadenses em razão da investigação. O jogador nega todas as acusações apresentadas contra ele.
No caso de Ryan Mendes, o Ministério das Relações Exteriores informou que acompanha a situação por meio da Embaixada do Brasil em Wellington e presta assistência consular à brasileira que apresentou a denúncia. O Itamaraty afirmou que não divulga detalhes de casos individuais em respeito à legislação sobre privacidade e acesso à informação.
Enquanto as investigações seguem em diferentes países, a participação desses atletas na Copa do Mundo mantém em evidência o debate sobre os limites entre a presunção de inocência, a responsabilização esportiva e os critérios adotados pelas entidades do futebol internacional para a inscrição de jogadores em grandes competições.