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Comissão de Combate à Tortura denuncia maus tratos de adolescentes no CEM

No dia da visita da Comissão de Direitos Humanos, equipes flagraram jovens sendo retirados de uma ala especialmente montada para castigos dos adolescentes. MP apura.

03/09/2018 12:06

Estrutura deficitária, superlotação e maus tratos dos internos. Foi esta a situação constatada pela equipe do Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura em visita ao Centro Educacional Masculino (CEM) de Teresina em abril deste ano e denunciada em relatório divulgado nesta segunda-feira (03).

Quando a Comissão de Direitos Humanos, que acompanhou a fiscalização no dia 04 de abril, flagrou três adolescentes sendo transferidos entre duas alas, que são denominadas dentro da unidade como “de seguro” e “salas de castigo”. Os jovens, segundo o relatório, apresentavam escoriações e indícios de maus tratos físicos.

As alas em questão são a G e H e, conforme apontou a Comissão, são completamente insalubres, sem iluminação, não possuem divisórias, nem colchões, e não têm a garantia de materiais de higiene pessoal. Além disso, os adolescentes colocados nestes alojamentos tinham os direitos de comunicação com o mundo exterior negado, o recebimento de visitas vetado e eram privados de participar de atividades externas lúdicas e pedagógicas. No relatório, o Mecanismo de Combate à Tortura classificou os alojamentos como “verdadeiro local de segregação humana”.

A comissão que coordenou a vistoria no CEM conversou com os três adolescentes em situação de risco e constatou que eles estavam sofrendo agressões físicas e psicológicas desde o início de abril e que ainda não haviam sido ouvidos por nenhuma autoridade competente, nem encaminhados a qualquer tipo de atendimento ou serviço de saúde interno ou externo á instituição.

À Comissão do Mecanismo de Combate à Tortura, os jovens alegaram terem sofrido violência sob a ameaça de uma pistola. O relato dado foi confirmado pelo setor de portaria e de atendimentos psicossocial da unidade. Diante dos fatos constatados, o Mecanismo solicitou que fossem feitos exames de corpo de delito nos adolescentes e acionou a Vara da Infância e da Juventude e o Ministério Público.

Em conversa com o Portal O Dia, a titular da 46ª Promotoria de Justiça, promotora Francisca Vieira, informou que solicitou da Secretaria de Assistência Social e Cidadania (Sasc) a abertura de procedimento administrativo para apurar a conduta de funcionários do CEM com relação aos adolescentes.

O próprio Ministério Público abriu investigação para apurar os relatos dos adolescentes e realizou oitivas com as vítimas, acusados e pessoas a eles relacionadas. A promotoria aguardava somente o relatório do Mecanismo de Combate à Tortura para poder encaminhar o processo para a Justiça. A situação culminou no afastamento do então diretor do CEM, Valter Júnior.

“Esses casos de denúncias dentro das unidades socioeducativas são complexos, porque é um coordenador e várias equipes de plantão. Então se há maus tratos, nunca é uma equipe só que o pratica. Nesse caso específico que foi flagrado pelo Mecanismo, tem mais ou menos 11 pessoas envolvidas, no mínimo. Nós já ouvimos as vítimas, pessoas ligadas a elas, tem as perícias e uma série de coisas no processo que vai ser encaminhado para quem é de direito formalizar a denúncia”, relatou a promotora Francisca Vieira.

Após prestarem depoimentos a um juiz, à promotora e à Defensoria Pública, os adolescentes flagrados pelo Mecanismo sob indícios de maus tratos não retornaram ao CEM. Os familiares foram informados do ocorrido pelas autoridades judiciais e agora as equipes do Mecanismo buscam manter um diálogo junto ao Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (Sinase) e à Secretaria Nacional de Criança e Adolescente do Ministério dos Direitos Humanos, para acompanhar a judicialização do caso.

MP acompanha 11 procedimentos relacionados a tortura

Órgão fiscalizador e promotor dos direitos fundamentais, o Ministério Público Estadual (MPE-PI) acompanha atualmente 11 procedimentos administrativos e investigativos relacionados a maus tratos de adolescentes dentro do sistema socioeducativo do Piauí. A informação foi repassada pela promotora Francisca Vieira. Um deles é o caso dos três adolescentes flagrados sob indícios de tortura pela equipe do Mecanismo Nacional de Combate à Tortura.

Estes processos encontram-se em fase de coleta de provas, com as oitivas de testemunhas, das vítimas, infratores e acusados. Segundo a promotora Francisca Vieira, os relatos de maus tratos dentro de unidades de ressocialização são bastante comuns e o papel do MP, neste caso, é fomentar a denúncia a ser remetida para a Justiça.

“Concluída as oitivas, nós fazemos um relatório conclusivo e encaminhados ao promotor que tem a atribuição para promover a ação penal. É importante ainda termos o relatório do Mecanismo, porque ele corrobora as alegações por parte dos adolescentes. São jovens que têm um histórico de infração e que, por isso, são vistos, de antemão, com certo descrédito. O relatório traz as provas técnicas, porque se não ficaríamos naquilo de eles dizerem que são torturados e o torturador negar”, explica a promotora.

Os relatos que a Promotoria recebe vão desde maus tratos físicos até psicológicos, passando por constrangimentos e agressões verbais. Francisca Vieira diz que já viu inclusive casos de “julgamento” de adolescentes por uma suposta falta disciplinar feito sem a presença de uma comissão especializada em apurar a conduta e com o uso de violência física.

Promotoria fala em “desmilitarização da ressocialização”

O Ministério Público Estadual vem cobrando da Sasc aquilo que chama de “desmilitarização do sistema socioeducativo”. A cobrança ao Estado é no sentido de fazer cumprir a lei do Sinase, que diz que todo e qualquer coordenador de unidade socioeducativa tem que ser pedagogo ou psicólogo ou alguém que seja preparado para o trato com adolescentes e que tenha pelo menos dois anos de experiência na área.

A proposta é que as coordenações de centros de ressocialização que estejam ocupadas por militares sejam ocupadas por pedagogos, psicólogos e educadores. “Os comandos e coordenações eram todos da Polícia Militar e o que acontecia era uma militarização das unidades socioeducativas. Elas deixavam de ser centro de ressocialização e passaram a ser como um presídio”, diz.

Atualmente, somente o Centro de Internação Provisória (Ceip) e a Unidade de Semiliberdade ainda possuem militares em suas coordenações.

O outro lado

A reportagem de O Dia tentou contato com a Secretaria de Assistência Social e Cidadania (Sasc) para se pronunciar sobre o caso. Nem a diretora jurídica da Secretaria, nem o coordenador das unidades socioeducativas foram encontrados até o fechamento da matéria. O espaço segue aberto para futuros esclarecimentos por parte do órgão. 

Por: Maria Clara Estrêla
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