Moradores juntam dinheiro para construir parte de rua na zona Leste de Teresina

As condições precárias da via causam transtornos aos moradores do Conjunto Verde Lar e os impedem de transitar normalmente pelo local

09/12/2022 09:31h - Atualizado em 09/12/2022 10:05h

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Cansados de esperar por uma solução do poder público municipal, moradores decidiram se mobilizar para consertar por contra própria parte da rua Quatro, do Conjunto Verde Lar, zona Leste de Teresina. A vizinhança conta que, por causa das condições precárias da via, um cadeirante não consegue sair de casa nem mesmo para fazer tratamento médico, o que gerou revolta dos moradores que decidiram fazer um mutirão para consertar, pelo menos, a entrada da rua.

(Foto: Assis Fernandes/ODIA)

“Ele precisava sair para fazer tratamento e o carro não conseguia chegar até a casa dele. Então, a gente se mobilizou e tiramos do nosso bolso para consertar pelo menos a entrada da rua, que era uma cratera, para o carro poder entrar para buscar ele. Essa já é a segunda vez que a gente faz isso. Ano passado juntamos R$ 1 mil e ajeitamos uma parte, agora juntamos mais R$ 700 para ajeitar mais um pouco. O meu carro mesmo está parado em casa porque quebrou aqui”, conta a dona de casa Crisalda Sousa, que mora na rua Quatro há 11 anos.

(Foto: Assis Fernandes/ODIA)

O aposentado Antônio Oliveira mora no local há cinco anos e afirma que não consegue sair de casa sem contar com a ajuda dos vizinhos. Ele é cadeirante e precisa de acompanhamento médico frequentemente devido à problemas de saúde agravados pela diabetes. A acessibilidade é ainda mais prejudicada devido a uma mureta construída na porta de casa para evitar que o imóvel seja inundado durante os alagamentos do período chuvoso.

“Eu vivo preso dentro de casa 24 horas por dia, não consigo chegar nem na calçada sem pedir ajuda. Eu mandei construir essa mureta, porque se não tiver ela, quando chover posso perder tudo em casa. É muito triste porque essa casinha foi a única coisa que consegui comprar com meu dinheiro quando me aposentei. Depois de 35 anos trabalhando, comprei esse terreno e fui arrumando a minha casa. Se eu precisar ir para um hospital, nem ambulância entra na rua. Nem mesmo o Transporte Eficiente”, conta.

(Foto: Assis Fernandes/ODIA)

A falta de estrutura dificulta o acesso da população a direitos básicos como saúde e educação. Na residência da dona de casa Maria Jesus Sousa, por exemplo, quando chove, os três filhos em idade escolar não vão para a aula. Além disso, a dona de casa lembra com indignação que, há uma semana, ao entrar em trabalho de parto, precisou ser levada nos braços pelos vizinhos até a entrada da rua para conseguir ir à maternidade.

“Meu filho hoje tem sete dias de nascido. No dia que eu entrei em trabalho de parto, me pegaram nos braços para levar pra entrada da rua. É uma situação muito triste. Quando chove, então, piora tudo. A água entra pelo portão da minha casa e alaga tudo. Já perdi as contas do que eu perdi. Em dia de chuva meus filhos nem vão para a escola”, destaca.

(Foto: Assis Fernandes/ODIA)

Na rua Quatro, a única saída encontrada pelos moradores, assim como o seu Antônio, foi construir muretas nas portas para diminuir as perdas provocadas pelas chuvas. A situação se repete todos os anos, basta iniciar o período chuvoso para a vizinhança começar a contabilizar os prejuízos. Não são raros os relatos de pessoas que perderam móveis e eletrodomésticos devido aos constantes alagamentos.

“Eu já perdi dois guarda-roupas, cama, muita coisa de dentro de casa porque quando chove alaga tudo e não precisa ser uma chuva forte, quarenta minutos de chuva já é suficiente para a água subir e entrar nas casas. Como aqui é baixo e não tem galeria, toda a água do bairro entra nessa rua e invade as casas. Meu sobrinho mora no final da rua e, em uma chuva, quando voltou do trabalho tinha perdido tudo dentro de casa. Quando eu estou fora de casa e começa a chover, já fico desesperada pensando no que posso perder”, revela Crisalda Sousa.

Com tantos prejuízos, vários moradores já abandonaram os imóveis na rua Quatro e se mudaram para outros locais. No entanto, nem todos querem sair das suas casas conquistadas com tanto suor. É o caso do comerciante José Luiz Machado. Um dos primeiros moradores da rua, ele lembra que os quatro filhos nasceram na Rua Quatro e, mesmo com todos os problemas de estrutura urbana, não pretende deixar o local.

(Foto: Assis Fernandes/ODIA)

“A gente tem esperança, sempre que é época de eleição vem algum candidato pedir voto e diz que vai arrumar a rua. Nós sempre acreditamos e confiamos o nosso voto, mas nos decepcionamos. Já cheguei a reunir até 80 pessoas na minha casa em tempo de política na confiança que iam nos ajudar. Teve um que chegou até a medir a rua, dizendo que ia conseguir a emenda para fazer o calçamento. Todo mundo se reuniu, ajudou a medir, e até agora nada. Eles ganham e esquecem da gente”, diz o comerciante.

A assistente de atendimento Silvia Viana mora no local há 11 anos e há um ano pretende vender o imóvel onde mora com a família e se mudar para outro local. O maior empecilho, no entanto, é a própria rua, que assusta todos os potenciais compradores. 

“Eu mando as fotos, as pessoas se interessam pela casa, mas quando chegam e veem a rua, desistem de comprar. Teve um que gostou muito da casa e marcou de vir ver pessoalmente, mas quando chegou na entrada da rua, de lá mesmo ele foi embora, não quis nem entrar. Eu gosto daqui, mas quero mudar para a zona Norte onde meu filho estuda. Mesmo assim, quero que arrumem a rua para que todo mundo consiga viver com dignidade”, destaca.

(Foto: Assis Fernandes/ODIA)

 A reportagem do O Dia entrou em contato com Empresa Teresinense de Desenvolvimento Urbano (Eturb), que informou que “como na rua ainda não tem nenhum tipo de base para o asfalto (ainda está na "terra"), seria caso de intervenção da SAAD da região”. A reportagem também entrou em contato com a Saad Leste, que comunicou que irá avaliar se a rua está no cronograma para receber calçamento na região. Contudo, o órgão não deu um prazo para quando as intervenções devem ser feitas.

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