Há discussões que nunca terão fim. A cada geração, a cada copa do mundo o futebol apresenta um novo fenômeno, um novo gênio, um novo candidato ao posto de maior jogador de todos os tempos. Hoje, esse debate gira, naturalmente, em torno de Lionel Messi.
E não poderia ser diferente.
Seu talento é extraordinário. Sua visão de jogo parece desafiar a lógica. Seus dribles, assistências e gols encantaram o mundo durante quase duas décadas. Os títulos conquistados pelo Barcelona, a Copa América e, sobretudo, a Copa do Mundo de 2022 completaram uma carreira que já havia alcançado a imortalidade.
Negar a grandeza de Messi seria negar a própria história do futebol.
Mas reconhecer sua genialidade não significa reescrever a História.
Porque existe uma diferença entre ser um dos maiores jogadores de todos os tempos e ser aquele que mudou para sempre a própria história do esporte.
Esse homem foi Pelé.
Comparar Pelé e Messi exige muito mais do que colocar estatísticas lado a lado. Os números são importantes, mas nunca contam toda a história.
Cada época impõe desafios diferentes.
Messi brilhou em um futebol altamente profissionalizado. Atuou em gramados impecáveis, contou com preparação física de excelência, medicina esportiva de ponta, tecnologia de análise de desempenho, arbitragem com VAR e regras que protegem muito mais os jogadores talentosos.
Pelé não conheceu nada disso.
Jogou em campos irregulares, muitas vezes enlameados. Sofreu marcações impiedosas numa época em que a violência era considerada parte do espetáculo. Não existiam cartões aplicados com o rigor atual. Não havia VAR. As substituições eram limitadas.
Os zagueiros não tinham como missão apenas marcar, tinham a missão de impedir o talento. E o maior alvo era Pelé. Ainda assim, fez do impossível um hábito.
Aos dezessete anos conquistou sua primeira Copa do Mundo, em 1958, deixando o planeta maravilhado. Voltou ao topo em 1962 e, novamente, em 1970, liderando aquela que muitos especialistas consideram a maior seleção da história.
Até hoje, continua sendo o único jogador tricampeão mundial. Este feito permanece intocado há mais de seis décadas.
Existe outro detalhe que raramente é lembrado. Pelé disputou quatro Copas do Mundo. Nas três em que pôde jogar sem ser seriamente limitado por lesões provocadas pela violência dos adversários, conquistou o título. Em 1966, foi brutalmente perseguido em campo, sofreu faltas violentas e praticamente foi retirado da competição.
Quatro anos depois, voltou para oferecer ao mundo uma das maiores exibições coletivas que o futebol já conheceu.
Os números também precisam ser analisados com equilíbrio. Messi ultrapassou a marca de 800 gols oficiais, conquistou inúmeros títulos nacionais e internacionais e acumulou premiações individuais que dificilmente serão igualadas.
Pelé, por sua vez, marcou 1.283 gols em 1.367 partidas ao longo da carreira, segundo a contagem consagrada pelo Guinness World Records. Mesmo quando se consideram apenas os jogos oficiais de primeira linha, seus números permanecem extraordinários para a época em que atuou.
Mas a comparação não termina aí. Pelé permaneceu praticamente toda a sua carreira no Santos Futebol Clube. Não precisou vestir a camisa de um gigante europeu para conquistar o planeta. Foi o planeta que atravessou oceanos para vê-lo jogar.
Na década de 1960, o Santos transformou-se na equipe mais conhecida do mundo. Não porque possuía o maior orçamento ou a estrutura mais moderna, mas porque possuía Pelé. Em muitos países, guerras chegaram a ser interrompidas para que as pessoas pudessem assistir ao Rei em campo. Verdade ou lenda em alguns episódios, o fato é que sua presença mobilizava multidões e transformava partidas de futebol em acontecimentos históricos.
Sua influência ultrapassou os estádios. Em 1999, o Comitê Olímpico Internacional concedeu-lhe o título de Atleta do Século, uma das maiores distinções já recebidas por um esportista. No mesmo período, jornalistas esportivos de diversos países também o apontaram como o maior atleta do século XX. Em 2000, a FIFA o reconheceu como um dos Jogadores do Século, confirmando oficialmente aquilo que o mundo já sabia havia décadas.
Seu nome deixou de representar apenas um jogador, transformou-se em sinônimo de excelência. Até hoje, quando alguém deseja definir o melhor profissional de qualquer área, diz que ele é “o Pelé” da profissão. Nenhum outro atleta alcançou essa dimensão simbólica.
Há uma última diferença que considero decisiva. Messi teve ídolos, Pelé tornou-se o ídolo dos ídolos. Maradona, Cruyff e muitos outros foram comparados com Pelé. O próprio Messi continua sendo comparado com Pelé. Nunca aconteceu o inverso. Porque a maior referência não procura outra referência acima de si. Ela se torna a medida pela qual todas as outras serão julgadas.
Nada disso diminui Lionel Messi, ao contrário, sua carreira merece admiração permanente. Ele pertence ao seleto grupo dos maiores jogadores da história do futebol.
Mas Pelé pertence a um grupo ainda menor, o daqueles que mudaram a História.
Os números impressionam, os títulos engrandecem. Os recordes existem para serem quebrados. O legado, não.
Messi escreveu uma das páginas mais brilhantes que o futebol já conheceu. Pelé escreveu o livro. Por isso, quando a paixão das torcidas silencia e a História assume a palavra, resta apenas uma conclusão.
O futebol produziu grandes campeões, revelou gênios inesquecíveis, encantou o mundo com artistas da bola.
Mas a História escolheu um único Rei.
Edson Arantes do Nascimento.
Pelé.