Dia 13 de julho é comemorado o Dia Mundial do Rock e, em 2026, a data completa 41 anos de existência. A celebração costuma não passar em branco em diversas partes do mundo e, no Piauí, não é diferente. Há 41 anos acontecia um evento que marcaria a história da música e se tornaria um dos principais símbolos desse estilo: o festival beneficente Live Aid, realizado em 1985, em Londres, reunindo grandes nomes como David Bowie, Mick Jagger, Queen, U2 e The Who.
Apesar de o Piauí ser um estado nordestino e de pesquisas apontarem que o forró é o gênero preferido de grande parte dos teresinenses, o rock continua mantendo um público fiel, que atravessa gerações e segue fortalecendo a cena local.
Teresina viveu seus anos dourados do rock, especialmente nas décadas de 1990 e 2000. Festivais como o Piauí Pop e o Boca da Noite, além de espaços tradicionais, como Planeta Diário, Bar do Churu, Bueiro do Rock, Raízes, Caneleiro e Bar do Clóvis, ajudaram a consolidar o cenário musical, abrindo espaço principalmente para bandas autorais. Muitos desses locais deixaram de existir, mas permanecem vivos na memória de quem acompanhou esse período.
Mesmo com a redução desses espaços, o rock segue resistindo. Para Driênio Silva, um dos proprietários do Bueiro do Rock, essa permanência está diretamente ligada à fidelidade do público. “Eu creio que o rock tem um público bastante fiel, que sempre está escutando, sempre está comparecendo. E, por conta dessa fidelidade ao gosto, ao estilo musical e ao estilo de vida, o público vai se renovando aos poucos”, afirmou.
Segundo ele, essa renovação acontece principalmente dentro das famílias, com filhos sendo influenciados pelos pais.
A gente vê muito isso, os pais levando os filhos jovens para alguns eventos. É isso que vai mantendo uma certa rotatividade no público, embora pareça que ele esteja diminuindo
Entre os espaços que ainda mantêm essa cultura viva está o Bueiro do Rock, que completa quase duas décadas de funcionamento e se consolidou como uma das principais referências do gênero em Teresina. O empresário ressalta que a proposta do Bueiro do Rock sempre foi apoiar a produção local.
“Eu creio que o Bueiro é um dos pontos mais simbólicos da cidade para o encontro desse público. Mas ainda existem outros espaços, como o Boca da Noite, além de shows underground realizados em praças, ruas e becos. O público punk ainda promove muitos eventos no Centro de Teresina, e isso mantém a rotatividade da cena. A casa surgiu com essa proposta de apoiar a produção local. Durante todo esse tempo, a gente vem dando esse suporte para bandas que querem realizar seus shows e para produtores que desejam levar seus eventos para lá”, disse.
Além de receber bandas locais, a casa também abre espaço para artistas nacionais e internacionais, fortalecendo a cena autoral e aproximando o público de diferentes vertentes do rock. Assim, o espaço ganhou reconhecimento e rompeu fronteiras.
“Hoje recebemos e-mails e mensagens do mundo inteiro, de bandas elogiando o espaço e querendo conhecer a casa e ter esse reconhecimento internacional é muito gratificante”, afirmou.
Para Driênio Silva, o Dia Mundial do Rock representa mais do que uma homenagem ao estilo musical. A data reforça os valores que sempre acompanharam o gênero e enfatiza que é o amor ao rock que mantém o estilo vivo até hoje.
“A importância dessa data é justamente fazer com que as pessoas continuem vivendo a essência do rock and roll. Na sua essência, ele fala de união, liberdade e respeito ao próximo. O rock está aí para apoiar a diversidade e acolher as pessoas diferentes. Com certeza é o amor pelo rock que faz com que o público continue frequentando os espaços. Não só aqui, mas em todo o Brasil”, concluiu.
Três décadas de resistência ao rock autoral
Com 30 anos de estrada, a banda Radiofônicos é um dos exemplos de resistência do rock autoral em Teresina. Fundado em 1996, o grupo nasceu da amizade entre jovens que queriam tocar versões de bandas que admiravam, mas que logo decidiram criar músicas próprias e construir uma identidade musical. Ao longo de três décadas, lançou discos, singles, passou por mudanças na formação e enfrentou as dificuldades comuns às bandas independentes, sem abrir mão da produção autoral.
Para o vocalista Henrique Douglas, permanecer ativo por tanto tempo só foi possível graças à persistência. Além disso, ele conta que a motivação nunca esteve apenas no mercado musical.
"Chegar aos 30 anos é uma prova de resistência, amizade e, principalmente, de muito amor pelo rock e pela música. O maior desafio sempre foi conciliar outro tipo de vida profissional e os compromissos pessoais sem abandonar a música. Fazer rock autoral aqui exige persistência, porque quase tudo depende da iniciativa da própria banda", afirma.
Ao olhar para o cenário atual, Henrique acredita que a realidade do rock em Teresina mudou bastante em comparação às décadas de 1990 e 2000, quando havia mais festivais, casas de shows e bandas em atividade. Hoje, embora ainda existam bons músicos e grupos, o espaço para o gênero diminuiu.
"Nos anos 1990 e 2000 existia uma cena muito movimentada, com festivais, casas de shows e uma quantidade maior de bandas circulando ao mesmo tempo. Hoje o cenário está mais pulverizado", comenta.
O vocalista destaca que o rock perdeu espaço nos grandes eventos musicais e que as redes sociais, apesar de facilitar a divulgação, acabam fragmentando o público. Apesar disso, ele destaca que ainda existem boas bandas e músicos em Teresina, mas que precisam disputar atenção com um universo muito maior de conteúdos.
O desafio agora é fortalecer novamente os espaços para apresentações ao vivo e incentivar o público a prestigiar a produção local. O rock vive passando por várias fases, mas agora não está nada popular. Os grandes festivais e eventos são muito mais pop do que rock
Mesmo assim, Henrique acredita que o gênero continua vivo graças à fidelidade de seus admiradores. Além disso, segundo ele, atualmente a cena se organiza muito mais pela mobilização coletiva do que por espaços fixos.
"O rock sempre encontrou um jeito de sobreviver em Teresina. Mesmo sendo um mercado dominado pelo forró e pelo sertanejo, existe um público muito fiel que acompanha bandas locais, festivais e eventos temáticos. Esse público se encontra principalmente nos bares que abrem espaço para bandas de rock, em festivais independentes e em eventos organizados pelos próprios músicos e produtores culturais. Mais do que um endereço específico, a cena hoje funciona muito pela mobilização das pessoas. Quando surge um bom evento, o público aparece”, destaca.
Para o vocalista da Radiofônicos, essa relação próxima entre artistas e fãs explica por que o rock continua atravessando gerações, e criando conexão que passa de pais para filhos.
"O rock tem uma característica que poucos gêneros conseguem manter: ele se reinventa sem perder sua essência. Além disso, cria comunidades. Quem gosta de rock normalmente não consome apenas música, acompanha a história das bandas, os discos, os shows e as referências culturais. Pais apresentam suas bandas favoritas aos filhos, e os jovens acabam descobrindo um universo que continua atual justamente porque fala de temas humanos, universais e permanentes", conclui Henrique Douglas.