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Em Teresina, prefeitura oferece tratamento gratuito para quem quer parar de fumar

Para algumas pessoas, fumar cigarro é sinônimo de status e glamour. Mas, diferentemente do que muitos pensam, essa é uma doença difícil de ser curada e que pode ser iniciada ainda na fase da adolescência. Um mau hábito que se estende ao longo de toda a vida e traz enormes prejuízos à saúde. 

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Em Teresina, prefeitura oferece tratamento gratuito para quem quer parar de fumar

A dona de casa Maria José e Silva de Sousa (62), foi fumante há 49 anos. A dependência química lhe trouxe alguns problemas de saúde e de convívio familiar. Quase cinco décadas depois, ela decidiu que era hora de parar e buscou ajuda. Moradora da zona Norte, ela procurou o Serviço Social do Hospital Municipal da Criança, localizado no bairro Parque Piauí, zona Sul de Teresina, onde funciona o Programa de Combate ao Tabagismo.

“Eu fumava, mas tinha consciência que era muito prejudicial. Conheci um senhor que me falou sobre o Programa do Parque Piauí e, ao chegar em casa, pedi que meu sobrinho entrasse em contato para obter mais informações. Após oito dias, consegui ser incluída no grupo de pacientes e iniciei meu tratamento. No dia 08 de junho de 2023 foi a última vez que fumei um cigarro”, comemora dona Mazé.

Após alguns meses de tratamento, ela conta que se sentiu curada e decidiu que seria tratamento sem a ajuda da medicação (adesivo de nicotina). Desde então, dona Mazé conta que nunca teve recaídas e tem seguido firme em seu objetivo de não fumar. 

“Eu me sinto curada. Às vezes, vem uma vontade, mas eu desvio o pensamento, bebo água ou como uma fruta. Na época, passei a fazer atividade física e isso me ajudou muito. Nunca tive recaída. Quando estou perto de alguém que fuma, não reclamo e nem faço gesto, porque isso magoa a pessoa, apenas me retiro. Hoje eu vejo o tanto de mal que causei às pessoas à minha volta e que tinham que conviver com aquela fumaça”, lamenta a dona de casa.

O apoio da família foi fundamental para que ela conseguisse parar de fumar e seguisse firme em sua decisão. Além disso, ela conta que é preciso trabalhar o psicológico, de modo a internalizar que essa ação é essencial para a saúde.

“A família precisa dar apoio, mas sem pressionar. O psicológico da gente é uma máquina e precisamos colocar na cabeça que não queremos mais [fumar], para que ele entenda.

Enquanto a pessoa não se conscientizar que esse vício é prejudicial, ou ficar brincando de esconde-esconde, tomando um remédio, parando e voltando, você nunca vai se libertar disso”, reitera a dona de casa.

13 anos sem recaída: “não foi fácil, mas o esforço é recompensado”

Fumante há 40 anos, a servidora pública federal, Maria do Socorro Estrela (65) também superou os desafios de parar de fumar e comemora os 13 anos sem recaídas. Em 2010, ela foi convidada para acompanhar uma amiga em um programa antitabagismo criado na Universidade Federal do Piauí (UFPI).

“Eu fumava uma carteira ou mais por dia, dependendo do dia. Quando eu trabalhava à noite, a coisa se estendia. Fui ao programa mais para acompanhar uma amiga que estava com problema grave de asma e o pulmão comprometido. Ela também era fumante. Aderimos ao programa, conhecemos como funcionava, a equipe. Tinha apoio psicológico, mas era só uma vez por semana, a cada 15 dias ou até uma vez por mês. E como toda turma que começa grande, terminou com um número bem menor que o iniciado. Eu fui uma das concluiu com louvor”, conta.

A servidora conta que, inicialmente, foi bombardeada com a realidade dos efeitos do cigarro no corpo. Segundo Socorro Estrela, o tabaco faz com que o indivíduo crie uma dependência física, emocional e psicológica. Durante o tratamento, para combater a abstinência causada pela retirada do cigarro, os pacientes fazem uso de adesivos de nicotina no corpo. 

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Tratamento contra o tabagismo inclui uso de adesivo de nicotina

“Só entende quem usa cigarro, quem fuma. Porque ele cria. Ele é um amigo nas horas vagas. É teu companheiro. E vem a parte física, com o hábito, além da nicotina, que te causa uma dependência grandiosa. Ao longo do programa, você vai esquecendo o adesivo. No começo, você se agarra naquilo com toda a energia, mas como todo vício, como todo hábito, vem a ansiedade, a vontade. Você respira fundo e em dois minutos passa”, conta.

Socorro Estrela lembra que deixar de parar foi um processo lento, mas que os benefícios puderam ser sentidos e percebidos, tanto por ela quanto pelos que estavam à sua volta.

“Lá se vão 13 anos, não tive recaídas, não lembro de nenhum sofrimento exacerbado. Eu costumava dizer que a primeira coisa que melhora é o paladar. Você começa a sentir as nuances dos sabores dos alimentos. O olfato também melhora absurdamente. Uma coisa que eu amava era não ter a obrigatoriedade de andar com o cigarro. A pessoa que fuma não sai de um ambiente para o outro sem pegar a carteira de cigarro e levar. Isso quando não tem uma carteira em cada lugar”.

Socorro ÊstrelaServidora Pública

A relação com os filhos também melhorou. Antes, o que era um incômodo e limitava Socorro em frequentar determinados espaços, tornou-se apenas uma lembrança. “Então veio a proibição em espaços públicos abertos, e aí foi libertador. Eu tive o privilégio de me libertar da nicotina e fiquei bastante abismada por conseguir. É uma vitória minha ter saído da linha de largada e chegar aonde eu queria sem o tabagismo”, comemora a servidora Socorro Estrela.

Programa de Combate ao Tabagismo já ajudou mais de 600 pessoas a parar de fumar

O Programa de Combate ao Tabagismo, que atualmente funciona no Hospital Municipal da Criança, no bairro Parque Piauí, zona Sul de Teresina, tem mais de 13 anos de existência e já ajudou mais de 600 pessoas a parar de fumar. O índice de aproveitamento do programa, em Teresina, é de 60%, enquanto, em âmbito nacional, apenas 30% dos pacientes concluem o tratamento.

Atualmente, o Programa atende 15 pacientes e mais de 150 estão na lista de espera aguardando por uma vaga. Com o recebimento de novas medicações, agora em janeiro, uma nova turma deve ser aberta, no qual mais 40 pacientes passarão a integrar o grupo.

Alba Valéria Batista, coordenadora do Programa de Combate ao Tabagismo, do Parque Piauí, destaca que outras oito Unidades Básicas de Saúde (UBS) de Teresina passarão a fazer parte do Programa Nacional de Controle do Tabagismo (PNCT), ampliando e descentralizando o serviço para outras regiões da cidade.

As unidades contempladas com o programa são: UBS Santa Luz, UBS Vila Bandeirante, UBS Buenos Aires, UBS Parque Flamboyante, UBS Todos os Santos, UBS Irmã Dulce, UBS Esplanada e UBS Alegria. 

Tabagismo, uma doença pediátrica 

“Muitas pessoas não consideram, mas o tabagismo é uma doença, inclusive pediátrica, porque a iniciação começa, na maioria das vezes, na infância ou adolescência, a partir dos 10 anos, seja por curiosidade ou por interferência da família, que à criança para trazer o cigarro, e a curiosidade leva a experimentação. Hoje em dia isso ainda se repete.

Os dados mostram que, com a modernização da indústria do tabaco, e o advento do cigarro eletrônico, a maioria do público é de adolescentes, e continua sendo a fase que se inicia o uso do tabagismo na adolescência”, comenta Alba Valéria Batista.

Jailson Soares/ODIA
Cigarro eletrônico é mais comum entre os jovens

A coordenadora do Programa cita que, para muitas pessoas, o uso do cigarro era considerado glamouroso e, com o surgimento das leis proibindo o uso em espaços fechados, as pessoas sentiam-se constrangidas em usar. Entretanto, com o surgimento dos cigarros eletrônicos, esse sentimento de empoderamento ressurgiu, sobretudo nos mais jovens.

“Com a legislação houve mudanças e o cigarro convencional passou a ser considerado algo ruim, no qual as pessoas não se sentiam mais confortáveis de usar, porém, o cigarro eletrônico voltou a trazer esse lado do glamour, especialmente em festas. Algumas pessoas acham bonito e interessante e acabam desrespeitando a legislação, usando em espaços fechados”, pontua.

Apesar do grupo atendido pelo Programa de Combate ao Tabagismo ter pacientes com diversas idades, em geral, a maioria dos integrantes possui mais de 40 anos.

“Infelizmente, os jovens são os que menos procuram. De um grupo de 15 pessoas, somente um paciente tem 20 anos, os demais são pessoas mais maduras. Mas atendemos todas as faixas etárias e todas as regiões da cidade. As pessoas interessadas em fazer parte do programa podem entrar em contato ou vir até o hospital, que fazemos o acolhimento, orientamos sobre o tratamento e colocamos na lista de espera, para ser inserido em um grupo de tratamento”, reforça, Alba Batista.

Os interessados em ingressar no tratamento devem procurar a sala do serviço social do Hospital Municipal da Criança, que funciona de segunda a sexta das 7h às 18h, e podem entrar em contato pelo telefone (86) 3220-4747 ou (86) 3220-5939.

Tratamento tem duração de um ano

O programa de combate ao tabagismo é realizado pelo setor de Serviço Social do Hospital Municipal da Criança e conta com uma equipe multidisciplinar. O tratamento tem duração de um ano e concilia terapia em grupo e uso de medicamentos. Ao iniciar o tratamento serão realizados quatro encontros semanais no primeiro mês, com objetivo de promover a cessação do tabagismo.

Em seguida são realizados dois encontros quinzenais e dez mensais, com objetivo de prevenir recaídas ou tratá-las caso aconteçam para que os pacientes se mantenham sem fumar. As reuniões do programa acontecem às quintas-feiras nos turnos da manhã de 8h às 10h e a tarde de 15h às 17h, conforme a sua disponibilidade.

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Programa conta com dois encontros quinzenais e dez mensais

O programa segue uma metodologia nacional, desenvolvida pelo Instituto Nacional de Câncer (Inca), no qual esse paciente recebe suporte físico e psicológico. Cada paciente passa por uma avaliação e, sendo identificada suas dependências, serão trabalhadas cada uma delas. 

“A metodologia do trabalho em grupo é uma troca de experiência de troca, onde ele próprios se fortalecem. No primeiro mês, é disponibilizada a medicação. A mais comum é o adesivo de reposição de nicotina. Mas também há medicações que ajudam a controlar a ansiedade e a depressão, fatores que dificultam. O mais difícil não é parar, mas manter.

A dependência comportamental e psicológica são as que mais dificultam essa parada e levam o paciente à recaída”, pontua Alba Batista.

Desse modo, o suporte da equipe multiprofissional visa trabalhar esse fortalecimento da independência, da autoestima e da mudança de hábitos desse paciente. Assim, são feitas abordagens integrais e holísticas, com terapia integrativa como acupuntura, massagens, entre outras, para que esses pacientes aprendam ferramentas que ajudem nos momentos que se sentirem desmotivados, com tensão e estresse. 

O que é o tabagismo?

O Tabagismo é uma doença crônica e epidêmica que causa dependência física, comportamental e psicológica. Atualmente, cerca de 1 bilhão de pessoas em todo o planeta são fumantes. Tamanho consumo faz com que o cigarro seja atualmente a principal causa de morte prevenível em todo mundo.

Um fumante de longa data tem sua expectativa de vida reduzida cerca de 13 anos, e pelo menos 50% dos fumantes morrerão de alguma doença diretamente causada pelo cigarro.

No Brasil morrem cerca de 200 mil pessoas por ano e nos EUA 1/3 das doenças cardiovasculares, incluindo infartos e AVC, são causadas pelo cigarro. Uma em cada dez mortes de adultos está relacionada ao tabaco.

Isto significa 6 milhões de óbitos por ano, 14 mil mortes por dia ou 1 morte a cada 6 segundos por doenças causadas pelo fumo. Em todo o mundo morrem mais pessoas de doenças relacionadas ao tabagismo do que de AIDS, álcool, drogas ilegais, assassinatos, suicídios e acidentes automobilísticos juntos.

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O Tabagismo é uma doença crônica e epidêmica

O cigarro é diretamente responsável por:

O que o fumo passivo pode causar?

Já está comprovado que o fumo passivo pode levar às mesmas doenças do fumo ativo. Por isso, as leis antitabagismo, cada vez mais restritivas em todo mundo, não são apenas uma questão de não-fumantes incomodados com o cheiro da fumaça dos fumantes. É uma questão de saúde pessoal e pública.

Filhos de pais que fumam expostos ao fumo passivo intradomiciliar por pelo menos 25 anos, tem o dobro de chances de desenvolver câncer de pulmão. Recém-nascidos expostos ao cigarro durante a gestação apresentam quase 4x mais chances de morte súbita. O risco de má formação fetal em mães fumantes também é maior. Mulheres grávidas expostas ao fumo passivo apresentam bebês com baixo peso ao nascerem.