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Oeiras

Bairro do Rosário, em Oeiras, é reconhecido como o primeiro quilombo urbano do Piauí

A certificação é resultado de um processo de mobilização comunitária que ganhou força nos últimos dois anos, envolvendo moradores, lideranças locais e instituições parceiras

15/07/2026 às 15h10

O bairro do Rosário, em Oeiras, foi reconhecido pela Fundação Cultural Palmares (FCP) como o primeiro quilombo urbano do Piauí. Com a certificação, a comunidade passa a integrar oficialmente o Cadastro Geral de Comunidades Quilombolas do Brasil, consolidando um marco histórico para o reconhecimento da identidade, da cultura e da resistência da população negra no estado.

Bairro do Rosário, em Oeiras, é reconhecido como o primeiro quilombo urbano do Piauí - (Divulgação/Emanuel Vital) Divulgação/Emanuel Vital
Bairro do Rosário, em Oeiras, é reconhecido como o primeiro quilombo urbano do Piauí

A certificação é resultado de um processo de mobilização comunitária que ganhou força nos últimos dois anos, envolvendo moradores, lideranças locais e instituições parceiras. Professor, morador do bairro e coordenador do processo de reconhecimento, Emanuel Vital explica que a iniciativa começou a sair do papel após o lançamento do livro Negras e Negros do Rosário, no qual ele é o autor. A partir desse momento, reuniões, assembleias e visitas às famílias passaram a fortalecer a organização do bairro em busca da certificação.

“Esse desejo que o bairro se tornasse um quilombo urbano não é novo. No entanto, as coisas começaram a acontecer de verdade há dois anos, quando aqui no bairro nós fizemos o lançamento do livro Negras e Negros do Rosário. Mas, de maneira mais intensa, as coisas começaram a acontecer há aproximadamente um ano, organizando a comunidade em reuniões pontuais, reuniões setoriais e também realizando assembleias. Fizemos a busca, provocamos a comunidade, buscamos informações, contactamos parceiros e começamos essa caminhada”, destacou.

Uma das etapas decisivas aconteceu em fevereiro deste ano, quando a comunidade promoveu uma grande assembleia de autoafirmação, exigida pela Fundação Cultural Palmares para dar andamento ao processo. Após o encontro, foram reunidos e enviados documentos, registros audiovisuais, reportagens, livros e um histórico do bairro para comprovar sua identidade quilombola.

“Em fevereiro de 2026 realizamos uma grande assembleia, reunimos uma quantidade grandiosa da população do bairro, cumprindo uma prerrogativa da Fundação Cultural Palmares. Depois encaminhamos vídeos, reportagens, revistas, jornais, livros, documentos antigos e um histórico do bairro. Eles nos deram até seis meses para avaliar a documentação e nos certificar, o que aconteceu agora”, disse.

Bairro do Rosário, em Oeiras, é reconhecido como o primeiro quilombo urbano do Piauí - (Divulgação/Raylla Vitória) Divulgação/Raylla Vitória
Bairro do Rosário, em Oeiras, é reconhecido como o primeiro quilombo urbano do Piauí

De acordo com Emanuel Vital, o reconhecimento apenas oficializa uma característica que o Rosário preserva há mais de 200 anos. O bairro mantém vivas manifestações ligadas à cultura afro-brasileira, presentes na religiosidade, na culinária, na dança, no artesanato e em outras tradições que ajudam a preservar a memória da população negra. Segundo ele, trata-se do primeiro bairro negro do Piauí, cuja trajetória histórica agora passa a ser reconhecida oficialmente.

“Na verdade, o nosso bairro é um quilombo por todas as características que carrega ao longo da história, seja na cultura, na culinária, na dança, na religiosidade, no artesanato e por preservar essa memória ancestral do povo negro. O nosso bairro é o primeiro bairro negro do estado do Piauí. Agora fomos agraciados, de maneira justa, como sendo o primeiro quilombo urbano do nosso estado”, comentou.

Para o coordenador, a certificação representa, antes de tudo, uma reparação histórica. Além do reconhecimento da identidade e da ancestralidade da comunidade, a medida fortalece a organização dos moradores e possibilita o acesso a políticas públicas voltadas às comunidades quilombolas, contribuindo para a preservação do patrimônio cultural e para a melhoria da qualidade de vida da população.

Ele destaca ainda que a conquista pertence a todos os moradores e que o próximo desafio será transformar o reconhecimento em benefícios concretos, por meio da busca por parcerias, investimentos e ações de desenvolvimento para o bairro.

Durante o processo de certificação, as visitas realizadas às famílias também permitiram que a própria comunidade redescobrisse parte de sua história. De acordo com o professor, muitas memórias, tradições e relatos vieram à tona ao longo das conversas com os moradores, fortalecendo o sentimento de pertencimento e reafirmando a importância da preservação da identidade coletiva do Rosário.

Assembleia geral de auto reconhecimento - (Divulgação/Emanuel Vital) Divulgação/Emanuel Vital
Assembleia geral de auto reconhecimento

“Esse processo nos ensinou muito. À medida que conversávamos com os moradores, íamos descobrindo histórias, memórias, tradições e fatos que muitos de nós desconhecíamos. A luta pelo reconhecimento não apenas confirmou a identidade quilombola do Rosário, mas também nos permitiu redescobrir o próprio bairro. Isso fortaleceu ainda mais o sentimento de pertencimento e mostrou que nossa maior riqueza está na memória e nas pessoas que mantêm viva essa história”, destacou.

Ao falar sobre a conquista, Emanuel Vital também deixou uma mensagem para outras comunidades que buscam o reconhecimento como quilombolas. Segundo ele, o processo exige perseverança, organização e diálogo, mas reforça que preservar a própria história é uma forma de garantir dignidade, respeito e um legado para as futuras gerações.

“A mensagem que eu deixo é de perseverança. Esse reconhecimento mostra que vale a pena acreditar na força da história, da identidade e da união de uma comunidade. É um processo que exige organização, paciência e muito diálogo. Que outras comunidades não desistam de preservar suas raízes, porque reconhecer a própria história é garantir dignidade, respeito e um legado para as futuras gerações”, concluiu.