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Piauí reserva R$ 89,5 milhões para riscos climáticos pela primeira vez

Recurso faz parte do PLDO 2027 e será usado para prevenção, mitigação e resposta a eventos como seca e calor extremo no estado

13/07/2026 às 14h35

O aquecimento global tem intensificado seus efeitos a cada ano. Na Europa, junho deste ano foi o mês mais quente da história, e no Piauí o cenário não é diferente. Um estudo mostrou que, em 20 anos (de 2000 a 2019), 2,5 mil pessoas morreram no estado em decorrência do calor, enquanto cresce anualmente o número de cidades em situação de emergência pela seca. Diante desse quadro, o governo estadual reservou, pela primeira vez, R$ 89,5 milhões destinados a riscos climáticos. Os recursos terão foco na prevenção, mitigação e resposta a eventos de maior relevância, além de servirem para absorver situações imprevistas, como crises hídricas.

Somente em 2025, o Piauí teve cerca de 125 municípios em situação de emergência por causa da seca. - (Reprodução) Reprodução
Somente em 2025, o Piauí teve cerca de 125 municípios em situação de emergência por causa da seca.

O valor está incluído no Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2027 (PLDO). A Reserva de Contingência conta com uma dotação total de R$ 350 milhões, e funcionará como um escudo contra crises emergenciais. Os R$ 260,5 milhões restantes serão destinados a possíveis impactos de processos judiciais em curso no Supremo Tribunal Federal (STF), segundo o Anexo de Riscos Fiscais do texto aprovado na Assembleia Legislativa do Piauí (Alepi) na última semana.

Segundo o secretário de Planejamento, Washington Bonfim, a reserva prevista para 2027 reflete um amadurecimento metodológico e o alinhamento com o novo arcabouço fiscal federal, já que 2027 será o primeiro ano de vigência integral do novo marco orçamentário, o que permitiu ao Estado especificar melhor os valores de risco, especialmente os climáticos.

Segundo Washington Bonfim esse será o segundo ano com reserva para riscos fiscais e a primeira vez com orçamento destinado a riscos ambientais.  - (Assis Fernandes/O Dia) Assis Fernandes/O Dia
Segundo Washington Bonfim esse será o segundo ano com reserva para riscos fiscais e a primeira vez com orçamento destinado a riscos ambientais.

"E a partir do ano que vem, nós vamos começar a fazer o que chamamos de trabalho de marca de marcação orçamentária. Significa organizar dentro do orçamento para que a gente saiba no final tudo aquilo que foi destinado para, por exemplo, mitigação de riscos fiscais, se os R$ 89,5 foram suficientes, ou insuficientes, em caso de algum evento climático extremos ou se eles não foram usados por inexistência desse tipo de risco climático, é uma uma implementação progressiva", avaliou o secretário de planejamento.

Já Sérgio Silva, diretor de Projeções e Metas Fiscais da Seplan, define os riscos como "algo inesperado" e explica que a reserva servirá para que o Estado não fique sem recursos diante de situações que exijam resposta emergencial. Segundo ele, caso os recursos não sejam utilizados, poderão ser direcionados a outras áreas.

Sérgio Silva, diretor de Projeções e Metas Fiscais da Seplan. - (Assis Fernandes/ O Dia ) Assis Fernandes/ O Dia
Sérgio Silva, diretor de Projeções e Metas Fiscais da Seplan.

"O valor de reserva de contingência quando ele não é utilizado dentro do ano, ele reforça as ações orçamentárias ordinárias dentro do ano. Eventualmente se o estado tiver com alguma necessidade de ativar outra política pública ou na área da saúde, da educação ou de infraestrutura (...) se o risco não se concretizar e esse valor normalmente se reveste em outras polícias [políticas]", complementou.

Defesa civil alerta que efeitos climáticos extremos mostram cada vez mais necessidade de reserva financeira

Para o diretor de Prevenção e Mitigação da Defesa Civil do Piauí, Werton Costa, a criação dessa reserva financeira representa uma mudança no patamar de proteção à população piauiense diante de efeitos climáticos extremos, transformando a gestão de desastres de uma ação pontual em uma política de Estado mais duradoura.

Diretor de Prevenção e Mitigação da Defesa Civil do Piauí, Werton Costa - (Reprodução/Ascom) Reprodução/Ascom
Diretor de Prevenção e Mitigação da Defesa Civil do Piauí, Werton Costa

"Esse é um processo que ele é feito a muitas mãos, a gente já vem trabalhando há dois anos, baseado em estimativas globais de impacto de desastre e considerando também todas as estatísticas ocorridas no estado", disse.

Werton explica que as ações coordenadas para o resultado final da contingência envolvem também a Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Semarh), que divide responsabilidades com o Plano de Proteção e Defesa Civil, focado no aspecto específico do desastre e na resposta imediata, como fornecimento de insumos, logística e maquinário em emergências.

Já o Plano de Ação Climática, coordenado pela Semarh, concentra-se em ações estruturantes e perenes, abrangendo o enfrentamento de eventos como seca, estiagem e calor extremo por meio de políticas de manejo de solo e preservação de reservatórios.

"É uma estratégia de planejamento do Estado, algo que anteriormente não existia e que agora está configurado em norma, em resolução. Tornou-se uma política de estado e não de governo", destacou Werton.

Altas temperaturas, queimadas e estiagem levam preocupação aos municípios

Somente em 2025, o Piauí teve cerca de 125 municípios em situação de emergência por causa da seca, afetando principalmente cidades do semiárido com dificuldades no acesso à água. Em janeiro de 2026, o estado ainda ocupava a terceira posição no Nordeste em registros de focos de calor, evidenciando um cenário de chuvas irregulares.

Em 20 anos, mais de 2,4 mil pessoas morreram em decorrência do calor extremo, diz estudo da FioCruz. - (Arquivo/ODIA) Arquivo/ODIA
Em 20 anos, mais de 2,4 mil pessoas morreram em decorrência do calor extremo, diz estudo da FioCruz.

No último ano, segundo dados do governo, os municípios que mais sofreram com o aumento das temperaturas e a seca foram Betânia, Bela Vista do Piauí e Acauã, todos na região do semiárido piauiense.

Neste ano, o governo estadual informou ter investido mais de R$ 300 milhões em obras no setor hídrico em todo o Piauí. Os dados, divulgados pelo Instituto de Desenvolvimento do Piauí (Idepi), correspondem ao período entre 2023 e 2025 e foram aplicados na ampliação do acesso à água, no fortalecimento da segurança hídrica e na melhoria de sistemas já existentes.

Entre as medidas estão melhorias nas estruturas de barragens, com projetos de limpeza, reforma, recuperação e construção. Os investimentos também incluem a elaboração de projetos e a construção de oito adutoras. Duas novas barragens estão sendo construídas, Atalaia e Nova Algodões, além de estarem em andamento os Planos de Segurança de Barragens das estruturas de Algodões II e Piracuruca.