Durante quase uma década, os títulos das dívidas públicas ocidentais tiveram compradores cativos na China, que convertia os superávits da sua balança comercial com os EUA em títulos do Tesouro norte-americano; no Japão, que financiava o Carry Trade, mecanismo descrito no nosso artigo “A Crise Japonesa”, publicado em 07/06/2025, no Substack; e nos seus próprios Bancos Centrais, que praticavam o afrouxamento monetário (Quantitative Easing – QE), em tempos de inflação contida, para reduzir o custo do financiamento da dívida pública.
Esse cenário que Benjamin Shalom Bernanke, ex-presidente do FED, chamou de excedente mundial de poupança e Lawrence H. Summers, Secretário do Tesouro dos EUA durante a presidência de Bill Clinton, descreveu como um excesso de capital para pouquíssimos projetos produtivos profundos, gerou a abundância de capital que assegurou um custo módico para o financiamento da crescente dívida pública ocidental.
No entanto, com o surgimento da Inteligência Artificial (IA) o sistema financeiro encontrou um sorvedouro de capital com profundidade de mercado virtualmente ilimitada. A enorme demanda de capital para investimentos em centros de processamento de dados e geração de energia para a IA tem levado as empresas do setor a captar recursos mediante taxas de retornos que variam entre 8% e 14% ao ano.
Tal demanda de capital pressiona o mercado de títulos públicos a pagar remunerações mais atraentes do que vinha pagando na década precedente, para concorrer com o setor privado. A grande mídia tende a atribuir a alta dos juros a crises políticas domésticas, como a paralisia política na França, a dificuldade com o orçamento no Reino Unido, o gigantismo do déficit nos EUA, mas o que há de determinante é a concorrência pelo capital disponível entre o setor privado da IA e o mercado de títulos públicos.
O mercado global de renda fixa soberana atingiu níveis de rendimento (yields) que não eram registrados há décadas. O título do Tesouro Americano de 30 anos ultrapassou 5,2% (maior nível desde 2007); o gilt britânico de 30 anos tocou 5,79% (pior marca desde 1998); os papéis franceses alcançaram o topo desde a crise do euro em 2011; e a obrigação japonesa de 40 anos rompeu os 4%, algo inédito em mais de 30 anos para a economia nipônica.
O choque estrutural de demanda por capital para financiar a corrida global pela infraestrutura de Inteligência Artificial (IA) representa o fim do financiamento de déficits soberanos crônicos a taxas reais praticadas na década precedente. Esta dinâmica de alta dos juros compromete a capacidade dos Estados de pagar o serviço de suas dívidas, atuando como o gatilho que precipita a adoção de “Repressão Financeira”, como único meio de evitar o default, conforme demonstramos no nosso artigo publicado em 29/06/2026, na nossa newsletter, no Linkedin, sob o título de “O Mercado Imobiliário sob a Dominância Fiscal”.
Economistas como Kevin Warsh sustentam que a IA, ao atingir maturidade, reduzirá drasticamente o custo de produção de bens e serviços, funcionando como uma força contra a inflação. É possível que a produtividade agregada aumente a ponto de derrubar a inflação estrutural no médio prazo, de forma que os Bancos Centrais conseguirão reduzir as taxas básicas de juros sem gerar pressões inflacionárias, o que representaria um alívio para o serviço da dívida soberana, mitigando ou adiando a adoção da repressão financeira.
Outra hipótese considerada é que eventual estouro da bolha da IA reverta a acentuada tendência de investimentos na nova tecnologia, mas um evento do gênero representaria uma enorme perda de capital, do qual certamente não resultaria o retorno de tanta abundância de liquidez para o mercado de títulos públicos, como alguns esperam.
O certo é que, diante desse cenário de concorrência pelo capital internacional, os portfólios mais sofisticados iniciam um movimento de abandono dos papéis de países emergentes altamente endividados, o que se reflete na valorização do Dólar frente a uma cesta de moedas de países desenvolvidos, com o retorno do índice DXY para patamares acima de 101 pontos. Nos países emergentes, como o Brasil, a perda de liquidez já é sentida nos leilões de título públicos e na inclinação positiva da curva de juros futura.
Contudo, assumir que os Estados aceitarão passivamente essa perda de acesso ao crédito e o consequente default institucional é ignorar o pragmatismo brutal do poder estatal. Para evitar a insolvência e garantir o financiamento continuado de seus déficits, os governos acionarão o aparato regulatório para implementação da estratégia de Repressão Financeira.
Como descrito no nosso artigo precedente, o objetivo fundamental da Repressão Financeira é canalizar deliberadamente os fundos disponíveis na economia para a compra de títulos públicos que pagam taxas reais negativas e substancialmente inferiores ao custo de oportunidade internacional. No entanto, é limitada a capacidade dos Estados emergentes em conter a fuga do capital estrangeiro especulativo (o chamado hot money), através de barreiras burocráticas e tributárias, como a elevação de impostos sobre transações financeiras (como o IOF no Brasil), instituição de quarentenas para a repatriação de capitais, taxação pesada sobre remessas de dividendos ao exterior e exigências de registros burocráticos junto aos órgãos reguladores.
A longo prazo, não existem ferramentas eficazes capazes de aprisionar o capital estrangeiro especulativo sem que isso destrua por completo a inserção do país no comércio internacional. No momento em que um Estado emergente sinaliza o enrijecimento dos controles cambiais, o fluxo de novos capitais estrangeiros cessa imediatamente, pois o investidor precifica o "risco de aprisionamento". Ademais, os agentes detentores do hot money encontram rotas de fuga contábeis complexas através de mecanismos como o subfaturamento de exportações, superfaturamento de importações (trade misinvoicing), operações de arbitragem cross-border e contratos de derivativos estruturados fora da jurisdição local. O fechamento absoluto dessas brechas exigiria o isolamento completo da economia nacional, transformando o país em um pária financeiro global.
Assim, a conclusão lógica e inevitável deste raciocínio é que o impacto destrutivo da intervenção estatal sob a forma de repressão financeira recairá, com força total, exclusivamente sobre o poupador nacional. É o cidadão doméstico, a classe média investidora e o detentor de patrimônio local que subsidiarão o saneamento dos balanços soberanos deficitários, através do mecanismo da "Ilusão Nominal" ou "Ilusão Monetária", documentada por Irving Fisher. Capturado por taxas de juros nominais que parecem eloquentes nos extratos bancários (como rendimentos de 12% a 15% ao ano), o poupador nacional deve permanecer em estado de letargia psicológica, anestesiado pelo conforto aparente da renda fixa, enquanto a inflação, de forma crônica e imperceptível, corrói o seu poder real de compra .
O atual estado de letargia do mercado imobiliário e dos ativos tangíveis, gerado pela ilusão monetária das taxas nominais elevadas, configura a um só tempo a maior distorção de preços e a maior janela de oportunidade do ciclo presente. Enquanto a massa de investidores domésticos permanece paralisada pelo conforto sedutor da renda fixa esterilizada, o estoque de ativos reais de alta qualidade, terrenos estratégicos (Landbank) e propriedades físicas permanecem severamente subavaliados.
Todavia, o movimento na direção dos ativos reais deve considerar o custo do carregamento do ativo tangível durante o período de letargia, para evitar que eventual prolongamento do período de estagnação econômica represente dificuldades com o fluxo de caixa, em decorrência de ônus financeiros, despesas operacionais e custos de oportunidade que o investidor é obrigado a suportar continuamente durante o período em que retém a posse do bem, enquanto espera o ciclo de mercado virar e a liquidez retornar.
Referências Bibliográficas e de Fundamentação Macroeconômica:
1. Artigo Precedente: "O Mercado Imobiliário sob a Dominância Fiscal", publicado em https://www.linkedin.com/pulse/o-mercado-imobili%C3%A1rio-sob-domin%C3%A2ncia-fiscal-barreto-vasconcelos-vexxe
2. FISHER, Irving. The Money Illusion. New York: Adelphi Company, 1928.
3. SARGENT, Thomas J.; WALLACE, Neil. Some Unpleasant Monetarist Arithmetic. Federal Reserve Bank of Minneapolis Quarterly Review, 1981.
4. REINHART, Carmen M.; SBRANCIA, M. Belen. The Liquidation of Government Debt. International Monetary Fund (IMF), Working Paper, 2011.
5. Dados Setoriais e de Emissões de Crédito Corporativo Global (IA/Tech) extraídos das discussões macroeconômicas de 2026.
A versão em Audiobook (Podcast) está disponível no meu Substack, cujo link segue abaixo: