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O SUBCONSUMO CHINÊS

No início da integração da China à economia global, as multinacionais ocidentais basearam suas estratégias na premissa de investir centenas de bilhões de dólares, transferir parques fabris inteiros e capacitar milhares de engenheiros chineses, aceitando a desindustrialização do Ocidente, em troca de uma promessa de acesso irrestrito, no futuro, ao maior mercado consumidor da história da humanidade, composto por 1,4 bilhão de novos clientes para automóveis, maquinários, tecnologia, remédios e bens de luxo de marcas Ocidentais.

No entanto, a inédita comitiva diplomática que desembarcou em Pequim, composta pelo chefe do Executivo norte-americano e 17 dos CEOs mais poderosos do capitalismo ocidental (incluindo os líderes da Apple, Tesla, Nvidia, BlackRock e Goldman Sachs) revela uma ironia geopolítica: a maior potência econômica do planeta fazendo o papel de "vendedor de porta em porta", tentando persuadir o Partido Comunista a abrir suas fronteiras para que os cidadãos chineses consumam carros, aviões, semicondutores e serviços financeiros americanos, para equilibrar o déficit da balança comercial entre os dois países.

Vinte anos depois da abertura econômica, a China transformou-se na maior potência exportadora do planeta, mas o seu mercado interno continua débil, com uma taxa de consumo estagnada em anêmicos 38% do PIB, quase metade da média global, e as famílias retendo mais de 40% de suas rendas na poupança. Como a população local não consome o que as fábricas produzem, o excedente dessa gigantesca capacidade industrial chinesa transborda para o exterior, resultando na inundação dos mercados ocidentais por veículos elétricos, painéis solares e bens manufaturados a preços ultracompetitivos, muitas vezes abaixo do custo real, colocando em risco de extinção setores industriais inteiros na Europa e nas Américas.

Michael Pettis, reconhecido como um dos maiores estudiosos da economia chinesa, afirma que o subconsumo na China não é uma escolha cultural das famílias chinesas, mas o resultado lógico de uma transferência sistemática de riqueza do trabalhador para o Estado e para a elite industrial do país, operada por Pequim ao longo de décadas, através dos seguintes mecanismos:

a) Repressão Financeira: O governo mantém as taxas de juros sobre os depósitos bancários artificialmente baixas. Como as famílias são obrigadas a poupar nos bancos estatais, elas subsidiam diretamente os empréstimos baratos concedidos às indústrias e às estatais. O poupador perde poder de compra para que o industrial floresça.

b) Crescimento Salarial Reprimido: Ao longo do boom econômico, a produtividade do trabalhador chinês cresceu muito mais rápido do que os seus salários reais. A fatia do PIB que retorna ao trabalhador na forma de renda é uma das menores do mundo industrializado.

c) Subvalorização Cambial Histórica: Manter o Yuan artificialmente desvalorizado funciona como um imposto oculto sobre as importações (encarecendo o consumo interno de bens estrangeiros) e um subsídio direto para os exportadores.

Se um país transfere a renda do seu povo para subsidiar a produção, ele fatalmente aumenta a produção, enquanto inibe o consumo doméstico. O país passa a gerar um excedente crônico de produção, que precisa ser exportado.

A par dos fatores aduzidos por Pettis, há a armadilha demográfica herdada da política do Filho Único (1979-2015), que criou o fenômeno conhecido com a inversão 4-2-1 (4 avós, 2 pais e 1 filho). Em tal contexto um único trabalhador adulto pode carregar a responsabilidade de sustentar e cuidar da saúde de até seis parentes idosos. Como a rede de seguridade social (saúde pública e previdência) na China é historicamente fragmentada e frágil, as famílias se veem obrigadas a acumular uma volumosa poupança precaucional. Economizar não é apenas um traço cultural, mas uma estratégia intergeracional de sobrevivência econômica.

Tal mecanismo perpetua o ciclo de baixa fecundidade, pois, recaindo quase exclusivamente sobre os jovens o cuidado com os idosos, os mesmos acabam optando por ter nenhum ou apenas um filho, diminuindo ano-a-ano o contingente em idade economicamente ativa, capaz de sustentar o sistema de previdência. Diferente de nações europeias ricas, que enriqueceram antes de envelhecer, a China está envelhecendo antes de se tornar um país totalmente desenvolvido.

Adicione-se a tudo isso a memória cultural da escassez histórica. O impacto psicológico das grandes fomes e da pobreza extrema do século XX na mentalidade das gerações que hoje controlam grande parte do capital familiar também influencia o comportamento de aversão ao risco das famílias chinesas, que levam a privilegiar a poupança em relação ao consumo.

Por fim, deu-se o esgotamento do modelo imobiliário chinês, por meio do qual o país sustentou artificialmente as metas de crescimento do PIB, apesar do consumo interno fraco. A China construía, em vez de consumir. Nas últimas décadas, Pequim canalizou o excesso de poupança nacional para a infraestrutura e o setor imobiliário, que passou a representar até 30% da demanda econômica e cerca de 70% da riqueza das famílias. Com o estouro dessa bolha em 2021, o colapso no valor dos imóveis gerou um severo empobrecimento da classe média, que investiu suas economias na especulação imobiliária, retraindo ainda mais o consumo.

Economistas alinhados ao Partido Comunista costumam argumentar que a China não está em crise, mas sim migrando deliberadamente para as chamadas "novas forças produtivas" (alta tecnologia e transição verde) para liderar o século XXI, mas o que Pequim vende como um salto tecnológico nada mais é do que a velha estratégia de subsídios estatais, sustentada pela classe trabalhadora, repaginada para o século XXI.

Para reequilibrar a economia em direção ao consumo, Pequim teria que promover uma transferência massiva de riqueza do Estado e das elites locais de volta para as famílias (via valorização cambial, aumentos salariais diretos ou tributação sobre o capital para financiar serviços públicos gratuitos). No entanto, o governo resiste a essa transição porque ela destruiria a base de custos baixos que sustenta a competitividade das exportações chinesas no mercado global.

As tensões comerciais entre o Ocidente e a China não são fruto de mera disputa política pelo status de potência hegemônica, mas sim o subproduto inevitável do mencionado desequilíbrio macroeconômico estrutural da China. Enquanto o mundo cobra de Pequim uma postura de livre mercado, a arquitetura econômica chinesa é projetada para produzir em massa e impedir que seus próprios cidadãos consumam o que produzem, gerando um déficit comercial crônico do resto do mundo em relação à China. A disputa por hegemonia é o fenômeno visível, mas a balança comercial é o verdadeiro campo de batalha onde essa guerra está sendo travada. O desequilíbrio macroeconômico da China é a causa do choque geopolítico sistêmico com o Ocidente e a resistência do Partido Comunista em adaptar o seu sistema econômico reduz o espaço para a reconciliação.