"Gente, olha isso!", "vou te mostrar", "corre e aproveita", "já ganhei". À primeira vista, essas expressões parecem apenas fazer parte da linguagem espontânea das redes sociais. Entretanto, quando utilizadas por influenciadores digitais para promover plataformas de apostas, transformam-se em sofisticadas estratégias de persuasão capazes de converter confiança em consumo e seguidores em potenciais apostadores. Mais do que vender um serviço, esses discursos constroem a ideia de que apostar é uma forma legítima de entretenimento, uma oportunidade acessível de ascensão financeira e um caminho possível para o sucesso.
As apostas esportivas on-line, popularmente conhecidas como bets, tornaram-se um dos mercados de maior crescimento no Brasil. A atividade foi reconhecida juridicamente pela Lei nº 13.756/2018 e regulamentada pela Lei nº 14.790/2023, com a promessa de disciplinar um setor que já movimentava bilhões de reais e ampliar a arrecadação pública. Contudo, a velocidade da expansão das plataformas digitais e das estratégias de marketing superou a capacidade do Estado de acompanhar um fenômeno que passou a ocupar espaço privilegiado nas redes sociais e no cotidiano de milhões de brasileiros.
Nesse novo cenário, os influenciadores digitais deixaram de ser apenas produtores de conteúdo para se tornarem mediadores simbólicos entre as plataformas de apostas e os consumidores. Diferentemente da publicidade tradicional, eles compartilham a própria rotina, estabelecem relações de proximidade, cultivam credibilidade e transformam recomendações em experiências aparentemente autênticas. Assim, a confiança construída ao longo dos anos passa a legitimar também o produto anunciado.
A análise das publicações de Virginia Fonseca e Carlinhos Maia evidencia esse processo. Juntos, eles alcançam dezenas de milhões de seguidores e utilizam estratégias discursivas marcadas por linguagem coloquial, demonstrações de ganhos financeiros, incentivo à experimentação e senso de urgência. Expressões como "gente, olha isso", "vou te mostrar", "corre e aproveita", "já ganhei" e "vai lá tentar" aproximam o público das plataformas e produzem uma narrativa em que o jogo aparece associado ao lazer, à oportunidade e ao sucesso financeiro. Os ganhos recebem ampla visibilidade; os riscos permanecem quase sempre invisíveis.
É justamente essa invisibilidade que transforma as bets em um desafio para as políticas públicas. O crescimento acelerado do setor passou a ser acompanhado pelo aumento do endividamento das famílias, do comprometimento da renda, da ludopatia e de outros impactos sobre a saúde mental. Em 2026, o Ministério da Saúde publicou a cartilha "Tudo o que você precisa saber sobre ludopatia", reconhecendo o transtorno do jogo como um problema de saúde pública e alertando que o uso compulsivo das apostas pode estar associado à ansiedade, depressão, isolamento social, conflitos familiares, uso de álcool e outras drogas, risco de suicídio e sobrecarga dos serviços do Sistema Único de Saúde (SUS). O documento representa um importante reconhecimento institucional de que os efeitos das bets extrapolam a esfera individual e exigem respostas articuladas entre saúde, educação, proteção do consumidor e regulação da publicidade.
O debate também chegou ao Congresso Nacional. Em audiência pública realizada no Senado Federal, especialistas, representantes da sociedade civil e parlamentares defenderam restrições mais rigorosas à publicidade das bets, especialmente quando realizada por influenciadores digitais, atletas e clubes esportivos. Os argumentos convergem para uma preocupação comum: a ampla divulgação dessas plataformas pode intensificar a exposição de crianças, adolescentes e outros grupos vulneráveis a práticas de consumo potencialmente prejudiciais, favorecendo recaídas de pessoas em tratamento e ampliando problemas relacionados ao jogo compulsivo.
Nesse contexto, o papel dos influenciadores precisa ser compreendido para além da publicidade. Eles ocupam uma posição estratégica em um triângulo formado por plataformas digitais, influenciadores e consumidores, no qual a confiança se converte em ativo econômico. Ao aproximarem as bets da rotina cotidiana e revestirem as apostas de espontaneidade, produzem efeitos simbólicos que contribuem para sua legitimação social e desafiam a efetividade das políticas públicas de proteção ao consumidor.
Mais do que discutir a legalidade das bets, torna-se necessário refletir sobre os limites éticos da influência digital e sobre a capacidade do Estado de acompanhar novas formas de persuasão construídas na economia das plataformas. O desafio contemporâneo não consiste apenas em regulamentar empresa de apostas, mas em compreender que, na sociedade conectada, o produto mais valioso já não é o jogo em si, é a confiança de milhões de pessoas, transformada em estratégia de mercado e capaz de redefinir comportamentos, escolhas de consumo e, sobretudo, os limites da responsabilidade social na era digital.
Nesse contexto, o papel dos influenciadores precisa ser compreendido para além da publicidade. Eles ocupam uma posição estratégica em um triângulo formado por plataformas digitais, influenciadores e consumidores, no qual a confiança se converte em ativo econômico. Ao aproximarem as bets da rotina cotidiana e revestirem as apostas de espontaneidade, produzem efeitos simbólicos que contribuem para sua legitimação social e desafiam a efetividade das políticas públicas de proteção ao consumidor.