As tardes de domingo, os dias de calor, a saída com os amigos e o passeio com as crianças tinham local certo em Teresina até meados dos anos 80. Os bancos de areias formados no Rio Parnaíba, próximo ao Centro Administrativo, era, naquela época, a opção escolhida pela população que queria se divertir, entreter ou praticar alguma atividade.
A “prainha”, onde havia vários pequenos empreendimentos, foi palco de atrações culturais lembradas até hoje por quem viveu a época de apogeu do rio como local de lazer. O nome se deu porque a estrutura formada pela areia e bares era similar ao litoral.
Ali, o Rio Parnaíba era o protagonista. Era quem dava vida. Era o auge do cenário cultural. Um impulso para empreendedores.
“Era o principal ponto turístico da cidade. Todo mundo gostava de estar lá, de banhar, de jogar bola. Famílias inteiras se encontravam na prainha para comer alguma coisa ou apenas curtir o cenário. Depois de um certo tempo, até o pessoal da classe média começou a frequentar. O rio era muito corrente, mas tranquilo. Até mais que o Poti. O Parnaíba era lindo e respeitado”, lembra Acy Campelo, escritor, teatrólogo e antigo frequentador do local.
O tempo passou, as cidades erguidas às margens do rio cresceram. Com o passar dos anos, o local que antes era o espaço mais movimentado da cidade começou a sofrer um processo de abandono. Outros fatores, como a violência, também influenciaram. Mas o rio continuava ali.
Em todo o Piauí, milhares de pessoas vivem em municípios diretamente banhados pelo Rio Parnaíba, cuja bacia hidrográfica é considerada uma das mais importantes do Nordeste. Além do abastecimento de água, o rio sustenta atividades econômicas como a pesca, o comércio local e informal, que são o sustento de tantas famílias.
Hoje, entre a Ponte José Sarney (Ponte da Amizade) e a Ponte Governador João Luís Ferreira (Ponte Metálica), em Teresina, o Rio Parnaíba ainda revela o fenômeno que só existe no tempo certo: bancos de areia que surgem no meio das águas e transformam o rio em praia. É ali que nasce, agora, a Jericoroa.
Ela não é fixa, nem permanente. Muda conforme o fluxo do rio. Durante a cheia, desaparece. Quando as águas baixam, ressurge, junto com uma tradição que já dura quase 50 anos.
A Jericoroa, assim como era a "prainha", é um exemplo de economia baseada nos recursos naturais.
Sem construções permanentes e funcionando apenas durante o período mais seco, a atividade gera renda para pequenos comerciantes que dependem diretamente da preservação da paisagem natural que atrai visitantes ao local.
Keila Nascimento e seu esposo José Pinheiro trabalham na coroa há 22 anos. A barraca onde vendem os mais variados pratos, desde o tradicional peixe assado até a clássica batata frita, e bebidas geladas é uma herança familiar, criada pela mãe dele. Uma tenda improvisada montada sobre a areia, mas sempre com muita movimentação.
“Funcionamos todos os dias, mas é no final de semana que a movimentação é maior. Durante a semana, as pessoas costumam vir por volta das 14h, já no sábado e domingo, o público chega cedo, a partir das 9h, e ficam até às 19h”, conta Keila Nascimento.
Mesmo antes de ter um nome oficial, a Jericoroa começou a ser um dos pontos de lazer mais importantes para a população teresinense a partir da década de 1980. A atividade ficou suspensa por alguns anos e foi oficialmente reativada em 2016, ficando brevemente parada durante a pandemia.
A “praia do Parnaíba” fica sempre no mesmo ponto, no banco de areia formado entre Teresina e Timon e perto da travessia dos barcos. “As pessoas encaram a Jericoroa como uma praia. Gostam da brisa, do vento, da areia e de apreciar o pôr do sol”, disse a empreendedora, que aproveita os períodos de bancos de areia no rio para fazer uma renda.
Keila lembra que há algumas décadas, o Parnaíba era a figura central. As pessoas mergulhavam e brincavam às margens do rio. “Não temos praia em Teresina, então, quem vem, quer aproveitar a culinária, o banho e ver o sol se pondo. O pôr-do-sol é um atrativo à parte. Todos ficam impressionados, saem das suas mesas e ficam admirando ele se por. A paisagem é muito linda”, ressalta
Para animar os visitantes, aos finais de semanas, há a apresentação de bandas e música ao vivo, o que se torna um diferencial. Um espaço convidativo para todos os públicos e de todas as idades.
“Quando saímos, sempre recolhemos tudo. Deixamos a coroa limpa, exatamente como achamos. Precisamos da natureza, pois é dela que tiramos o nosso sustento. O Parnaíba é nossa paixão”, enfatiza Keila Nascimento sobre a consciência de deixar o ambiente limpo e não poluir o rio, que é fonte de sustento de tantas famílias.
A atividade da Keila na Jericoroa reflete uma realidade onde a natureza como fonte de trabalho e renda. Por isto, segundo a Secretaria de Estado do Meio Ambiente, a preservação dos recursos da Bacia do Parnaíba é fundamental para garantir o sustento das comunidades ribeirinhas que dependem do rio.
A combinação entre lazer, gastronomia, pesca e contemplação da paisagem transforma espaços, como foi a “prainha” e hoje é a Jericoroa, em exemplos de economia sustentável, onde a conservação ambiental é condição essencial para a manutenção da atividade econômica.
“Sou apaixonado pelo Parnaíba"
Aos 88 anos, o pescador Francisco Soares, conhecido por todos como seu Nêgo, carrega a força de quem viveu o Rio Parnaíba em sua plenitude. Mais do que fonte de sustento, o rio sempre foi paixão, estrada, escola e companheiro de vida.
“Eu pescava mais no Parnaíba, e sempre fui apaixonado por esse rio. Lá dava peixe melhor e mais bonito. Depois que fizeram a barragem [de Boa Esperança], acabou tudo. Agora, a nossa riqueza passou a ser o Rio Poti”, conta.
Morador do bairro Poti Velho, zona Norte de Teresina, próximo ao cais, seu Nêgo cresceu às margens das águas. Quase todos os dias saía para pescar no Parnaíba. Às vezes, a viagem seguia além, por cidades como Guadalupe, no Piauí, e Parnarama, no Maranhão.
Conheço o rio quase todo. Sou apaixonado pelo Parnaíba”
Naquele tempo, grandes cargueiros cruzavam o Rio Parnaíba transportando sal, óleo, peixe, especiarias e outros produtos essenciais. O rio era uma verdadeira rodovia fluvial que abastecia as cidades ribeirinhas. “Era uma grande riqueza. A embarcação saía de Parnaíba, no litoral, carregada e vinha descendo o rio, passando pelas cidades, descarregando e pegando mais produtos, abastecendo até chegar em Uruçuí”, conta seu Nêgo.
As viagens eram longas e exigiam resistência. Para chegar a Parnarama, por exemplo, cerca de oito canoas seguiam juntas rio acima. Eles levavam dois dias remando, tudo na força do braço, pois na época não existiam motores.
Seu Francisco aprendeu a pescar aos oito anos. Ele e os cinco irmãos seguiram o pai nas águas. O ofício virou herança de família e foi transmitido também aos filhos. Era da pesca que vinha o sustento da casa.
Segundo o Ministério da Pesca e Aquicultura, o Piauí possui mais de 50 mil pescadores artesanais registrados, sendo o quinto estado brasileiro com maior número de profissionais da atividade. Muitos deles dependem diretamente dos rios Parnaíba e Poti para garantir renda e sustento às famílias.
Com o dinheiro do peixe, Seu Nêgo criou os seus filhos e manteve a família. A venda do pescado acontecia na Praça da Bandeira e no cais do Troca-Troca. “Eu saía daqui do Poti Velho com uma corda de peixe nas costas. Naquela época, quem tinha burro era quem tinha dinheiro.”
O orgulho é visível quando fala da profissão, que mesmo com a idade avançada, continua pescando, agora, não mais por necessidade, mas por amor. “Nem se eu ganhasse na loteria eu deixava meu amor pelo rio. Às vezes eu não pesco nada, mas vou lá conversar, passar o tempo”, confessa.
Hoje, seu Nêgo pesca no pesqueirinho do Rio Poti, próximo à ponte que liga o bairro Poti Velho à região da Santa Maria.
Com décadas de experiência, ele era o guia das expedições. Sabia interpretar a correnteza, apontar o melhor caminho e prever o comportamento das águas. “Era uma vida muito boa. Já cheguei a pegar peixe de 30 quilos no Parnaíba”, lembra. Hoje, ele ensina não mais com redes e anzóis, mas com palavras. Suas histórias preservam aquilo que o tempo e as transformações do rio modificaram.
A memória de seu Nêgo é também um alerta para a preservação do Rio Parnaíba, das histórias, das culturas e dos modos de vida que atravessam gerações. O rio não é apenas água que abastece cidades, é identidade, economia e herança.
A manutenção das atividades desempenhadas por Keila Nascimento e seu Nêgo depende diretamente da conservação do Parnaíba, que enfrenta desafios como assoreamento, descarte irregular de resíduos e despejo de esgoto sem tratamento ao longo das últimas décadas.
São essas histórias que mostram que o empreendedorismo sustentável, às margens do rio, se manifesta de forma simples e cotidiana, na relação de famílias que dependem da natureza para trabalhar e que entendem que preservar o rio é também garantir o próprio futuro.