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O COLAPSO DO CESSAR-FOGO NO ESTREITO DE ORMUZ

A retomada das hostilidades entre os Estados Unidos e o Irã no Estreito de Ormuz expõe o colapso previsível do Memorando de Entendimento assinado em Versalhes. Saiba porque o acordo entre EUA e Irã estava condenado desde a origem.

13/07/2026 às 00h25

Os noticiários informam da retomada das hostilidade entre os EUA e o Irã, em torno do Estreito de Ormuz. Embora o Memorando de Entendimento (MOU) assinado em Versalhes, em 17/06/2026, tenha sido vendido pela administração norte-americana como um triunfo diplomático, o colapso do mesmo não representa um acidente diplomático, mas o destino inevitável do cessar-fogo.

A conclusão do acordo se fez com base no uso abusivo do conceito diplomático da ambiguidade construtiva – a utilização intencional de termos vagos para contornar impasses e forçar a conclusão do acordo. No Parágrafo 5° do memorando, que regulava o trânsito de navios comerciais no Estreito de Ormuz, estipulou-se que o Irã usaria seus "melhores esforços" para garantir a segurança da via "sem qualquer ônus por 60 dias".

Para Washington, o texto sacramentava o livre trânsito permanente, para além do prazo mencionado. Para Teerã, a premissa era oposta: se o país deveria empenhar "esforços", significava que detinha a gestão operacional da rota e que, a partir do 61º dia, a gratuidade cessaria, abrindo espaço para a cobrança de pedágios navais. O erro elementar da diplomacia ocidental foi acreditar que um mal-entendido deliberado resistiria à realidade prática no cenário do conflito. Quando o Irã passou a exigir registros formais e escoltar navios para canais próximos à sua costa, a ficção jurídica de Versalhes desmoronou em menos de um mês.

As concessões norte-americanas para alcançar o acordo encerravam um paradoxo. Antes da assinatura, a campanha de pressão máxima dos EUA havia infligido ao Irã uma destruição material avassaladora, avaliada no patamar mínimo de 240 bilhões de dólares. Com a economia iraniana de joelhos, Donald Trump acabou chancelando um acordo que garantiu a Teerã um aporte imediato de 12 bilhões de dólares, a suspensão imediata das restrições à venda de petróleo pelo Irã no mercado internacional e a retirada histórica de tropas americanas da região — um pleito que os iranianos mantinham desde 1991, sem êxito. Por que ceder tanto quando se tinha a supremacia material?

De fato, o recuo norte-americano foi desenhado para acalmar a Arábia Saudita, obstinada em proteger os investimentos estrangeiros do plano Vision 2030, e o Catar, que operava com uma quebra de até 17% na liquefação de seu gás natural devido aos combates, mas a verdadeira razão para a capitulação dos EUA está na indissociável relação entre a projeção de poder no exterior e o reflexo imediato no bolso do eleitor doméstico. A pressão da Arábia Saudita e do Catar forneceu o pretexto diplomático regional, mas o verdadeiro catalisador para a pressa de Washington em assinar o acordo de Versalhes foi o relógio eleitoral americano e o risco de desabastecimento energético. O Ocidente comprou uma trégua de curto prazo para o mercado de energia, mas forneceu ao regime iraniano o oxigênio financeiro necessário para sua sobrevivência e rearmamento.

Essa injeção de recursos expôs a terceira fraqueza do acordo: a ilusão ocidental de que o Irã funciona como um bloco monolítico. O MOU foi negociado e assinado pela ala civil e pragmática do governo iraniano, cuja prioridade era estancar a sangria econômica do país. Contudo, depois do assassinato do líder iraniano, Aiatolá Ali Khamenei, ocorrido no primeiro dia dos ataques conjuntos de Israel e dos EUA, em 28/02/2026, o verdadeiro centro de gravidade em Teerã passou a ser o núcleo teocrático-militar comandado pelos Guardiões da Revolução (Pasdaran).

A nova liderança atua na reativação de células de eliminação de adversários na Europa e América do Norte, já havendo investigações policiais na Holanda, Alemanha, Reino Unido e Suécia que confirmam atentados e monitoramentos severos contra jornalistas da diáspora e dissidentes e relatórios compartilhados pela inteligência israelense que revelaram inclusive planos estruturados da Guarda Revolucionária para assassinar o próprio Donald Trump, em solo americano.

Outrossim, dados da inteligência militar revelam uma alteração profunda na demografia do Hezbollah. Pela primeira vez desde 1982, a maioria de seus combatentes na linha de frente não é de origem libanesa, mas sim um contingente transnacional composto por cidadãos iranianos, iraquianos e afegãos, anulando definitivamente a soberania do Estado libanês. O Hezbollah transmutou-se de uma milícia local em uma autêntica "Legião Estrangeira" iraniana, sob comando direto de Mohsen Rezaei, que se consolidou como o verdadeiro arquiteto da estratégia de segurança e das operações das forças armadas iranianas, retornando ao centro do palco geopolítico, depois dos bombardeios americanos e israelenses que decapitaram o regime de Teerã.

Sob a liderança do novo Guia Supremo, Mojtaba Khamenei, antigo integrante da Guarda Revolucionária, a linha-dura iraniana enxerga o recuo das tropas americanas como uma validação de sua estratégia de força e utiliza-se dos termos de Versalhes de forma instrumental. Para os militares, os 12 bilhões de dólares não representam um fundo de reconstrução nacional, mas um salvo-conduto para financiar suas milícias por procuração (os proxies), mantendo suas engrenagens de projeção de poder militar ativas. Fontes de inteligência confirmam que os recursos advindos do acordo estão sendo priorizados para o rearmamento das milícias e pagamento de salários das forças de segurança.

Por fim, o colapso do pacto evidenciou os limites do próprio poder de coerção naval dos Estados Unidos. Diante da retomada dos ataques iranianos a petroleiros em julho, as forças americanas responderam com bombardeios maciços contra mais de 170 alvos, destruindo radares costeiros, depósitos de mísseis, sistemas de defesa aérea e infraestruturas logísticas em portos estratégicos. A ofensiva incluiu a destruição de pontes ferroviárias cruciais no norte do país, na linha Teerã-Turcomenistão, por onde o tráfego de cargas chinesas havia triplicado, como rota de fuga terrestre ao bloqueio naval dos EUA. No entanto, o Centro de Comando norte-americano esbarrou em um obstáculo intransponível: campanhas de bombardeio puramente aéreas e navais possuem alta capacidade de degradar a infraestrutura material do inimigo, mas são conceitualmente incapazes de eliminar a ameaça de um país que utiliza a geografia de sua costa escarpada para pulverizar baterias de mísseis e bases de drones.

Também a escolta dos cargueiros pela marinha norte-americana se mostrou inviável diante da estratégia iraniana de defesa em mosaico e o uso de drones de baixo custo baseados em fibra ótica e contêineres móveis camuflados, que sabotam a eficácia da inteligência por satélite norte-americana. A assimetria de custos, em que cada míssil interceptador americano custa milhões de dólares, enquanto os drones e minas iranianas custam frações irrelevantes deste valor, joga contra Washington. Como ficou evidente na fase anterior do conflito, para aniquilar a capacidade ofensiva do Irã em Ormuz, os EUA precisariam de uma intervenção terrestre anfíbia de larga escala.

Como Donald Trump não reúne as condições políticas domésticas para sancionar uma invasão terrestre, sob o risco de disparar o preço da gasolina na bomba e expor à opinião pública a morte de muitos soldados norte-americanos, minando a popularidade do Presidente na véspera das eleições de meio de mandato (midterms), o teto militar americano ficou exposto. Sabendo disso, o Irã não hesitou em romper o acordo e atacar as bases americanas nos países vizinhos com mísseis balísticos e drones.

A conclusão lógica que se extrai do fracasso do Memorando de Versalhes é que a geografia, quando operada por um regime disposto a arcar com o isolamento econômico, pode subjugar a superioridade militar e orçamentária da maior potência do planeta. Ao fim e ao cabo, o acordo de 2026 não passou de um paliativo caro e efêmero. Está-se agora diante do cenário de "instabilidade gerenciada", onde o conflito não se resolve, mas se administra por meio de episódios recorrentes de violência.

 

Fontes:

MANA & MOB. Ecco perché all'Iran CONVIENE la Guerra con gli USA | Il Piano Russo CONTRO la NATO. YouTube, 10 jul. 2026. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=QDW5Ex8Kf_M.

LE FIGARO. Trump et l'Iran : la capitulation de Versailles ? Entrevista com Michel Fayad. YouTube, 18 jun. 2026. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=_DG3OrHgytA.

FAYAD, Michel. Après la guerre, la menace à nos portes. Paris: Éditions Fayard, 2026.

SANT'ANNA, Lourival. Trump não reúne as condições políticas para enviar tropas para "limpar" a costa escarpada do Irã... LinkedIn / CNN Brasil, jul. 2026. Disponível em: https://www.linkedin.com/posts/lourival-sant-anna-44853190_trump-n%C3%A3o-re%C3%BAne-as-condi%C3%A7%C3%B5es-pol%C3%ADticas-para-ugcPost-7480986830360907776-2-fc/.

CNN BRASIL. Guerra no Oriente Médio: Forças dos Estados Unidos fazem novos ataques contra o Irã. Programa Hora H. Análise de Américo Martins. YouTube, 8 jul. 2026. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=a1lpTueEsvo.