Picos

Vídeo: estudante de Picos participa de concurso para morar na Argentina e estudar medicina

Ane conseguiu entrar em uma Universidade Pública na Argentina para estudar medicina. Hoje, ela está participando de um concurso, onde pode ganhar três anos de aluguel grátis para morar no país

03/09/2021 12:22h - Atualizado em 03/09/2021 19:00h

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Joseane da Conceição Lopes, mais conhecida como Ane Yume, é uma estudante piauiense de 25 anos que mora em Picos. Ane conseguiu entrar em uma Universidade pública na Argentina para estudar medicina. Hoje, ela está participando de um concurso, lançado por uma empresa argentina, onde pode ganhar três anos de aluguel grátis para morar no país estrangeiro. 

Para ganhar o prêmio, a estudante teve que criar um vídeo contando um pouco da sua história e o porquê merece ganhar o concurso. O vídeo mais visualizado e compartilhado, ganha os três anos de aluguel. 

No post, a jovem conta que sempre estudou em escola pública e começou a trabalhar muito cedo. Aos 18 anos ela casou-se e começou a cursar Química no Instituto Federal do Piauí (IFPI). O seu sonho sempre foi Medicina e quando descobriu sobre o ensino público na Argentina, Ane trancou o curso e passou a tentar conseguir dinheiro para a viagem.

Confira o vídeo na íntegra

Joseane conta que ela e seu namorado trabalham com design gráfico e fizeram todo o processo de desenvolver o vídeo no estilo ‘draw my life’. “Nós fizemos todos os desenhos e animações. A gravação foi feita pelo celular, editamos e deu certo”, afirma. 

Hoje a publicação tem mais de 200 mil visualizações e diversos compartilhamentos. “Em dois dias nós conseguimos ficar em primeiro lugar. Nunca pensei que fosse ser tão abraçada pelas pessoas, não só na cidade de Picos, mas também pessoas do Estado”, ressalta.

“Pode demorar, mas você chega lá”, conta Ane

Joseane, bem como muitas mulheres piauienses, nunca teve uma vida fácil. A jovem começou a trabalhar com 16 anos, pois precisava ajudar com as despesas da casa. Ela sempre morou com seus avós e os considera seus pais.

A estudante conta o quanto é difícil entrar em um curso de Medicina no Brasil, visto que é uma luta desigual, quando existem jovens que não precisam se preocupar em trabalhar e podem fazer um curso preparatório ou estudar em uma escola particular. 

Joseane Lopes, mais conhecida como Ane Yume (Foto: Arquivo Pessoal)

“Aqui no Brasil o problema é a falta de oportunidade. É muito complicado entrar em um curso de Medicina aqui. Eu já passei em Direito, já passei em Letras na federal, Biologia e cursava Química, mas passar em Medicina sempre foi muito difícil. Eu não tinha condições de bater de frente com uma pessoa que estudou a vida toda em escola particular e que tinha condição de fazer um cursinho, sem precisar trabalhar”, explica Ane.

Quando a jovem descobriu o ensino público da Argentina, ficou encantada com a possibilidade de não precisar fazer um vestibular para ingressar no ensino superior, visto que no país, por lei todo e qualquer cidadão tem direito a educação pública e de qualidade. 

“Descobrir um ensino diferente e saber que em outros países existem diversas formas de ingresso da universidade, mudou a minha vida”, conta.

A Universidade Nacional de Rosário utiliza um método de ensino importado do Canadá, denominado PBL (Problem-based learning). É uma prática pedagógica empregada em muitas escolas médicas, onde o aluno deve ser autodidata. “Eles querem formar médicos humanizados. Lá você precisa entrar numa sala na frente de uma banca de médicos e doutores, onde eles vão te fazer perguntas, como se fosse uma apresentação de TCC todo mês”, esclarece.

Universidade Nacional de Rosário (Foto: Reprodução/UNR)

Joseane precisou aprender a língua espanhola para que pudesse passar por todas as etapas de ingresso da UNR. Ela conta que o mais complicado, além de aprender o idioma, foi conseguir toda a documentação necessária para a viagem. “Conseguir a documentação não é fácil, principalmente aqui em Picos. O passaporte tive que fazer no Ceará, porque não foi possível fazer em Teresina”.

A fim de conseguir dinheiro para todo esse processo, os amigos e familiares da jovem se mobilizaram. Eles fizeram rifa, feijoada nos finais de semana e até bazar de roupas. “Eu tenho um grupo de amigos que estão “destruindo” a internet atrás de likes. Eles fazem lista de transmissão e definem horários para divulgação. Então Deus me deu pessoas maravilhosas e sem a ajuda de todas as pessoas, eu não conseguiria chegar a lugar nenhum”, afirma a jovem.

Amigos e familiares de Ane Yume (Foto: Arquivo Pessoal)

“Estou saindo do Brasil porque quero dar uma vida melhor para os meus pais”

Ane Yume se emociona ao contar a história de sua vida e todas as dores que ela teve que passar até chegar onde está hoje. A mesma destaca que tudo o que faz, é para ser melhor para a sua família. Abandonada pelo pai biológico quando sua mãe ainda estava grávida, a estudante conta que isso a deu um “gás” para ir atrás de uma vida melhor. 

“Tudo o que eu faço é pelos meus pais, porque eles escolheram ser meus pais, quando não tinham obrigação nenhuma. O meu nome é a junção do nome dos dois e hoje eu escolho ser melhor por eles”, confessa Joseane. (Foto: Arquivo Pessoal)

A estudante ressalta ainda a importância de contar a sua história e saber que existem milhares de pessoas que se identificam com o que ela passou. “Eu fico encantada, porque muita gente pelo mundo se identificou com a minha história. Fiquei muito chocada, pois foram muitas visualizações e não para de subir. É muita gente curtindo e comentando, gente que eu nunca vi na vida. Os meus amigos abraçaram a minha causa, a minha família e a família do meu namorado também”, comemora.

Joseane cita ainda uma fala do livro ‘O Pequeno Príncipe’ para destacar o quão importante é que as pessoas sigam seus sonhos e não se contentem com pouco. 

“Uma frase desse livro diz que se você continuar andando em linha reta, você nunca vai conseguir chegar muito longe. E foi isso que aconteceu, eu saí da linha reta. Porque a linha reta para quem nasce pobre no Brasil, é se contentar. E meu pai sempre me ensinou a sonhar, porque é o sonho que mantém a gente vivo”, conclui. 

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Edição: Ithyara Borges

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