Histórias de resistências de negros são invisibilizadas, diz escritora

No dia da Consciência Negra, o Jornal O DIA debate como a retomada histórica faz com que, no presente, o conhecimento impulsione transformações

20/11/2018 07:33h - Atualizado em 20/11/2018 09:43h

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Na Central de Artesanato Mestre Dezinho, localizada no Centro da cidade, entre uma das dezoito esculturas de personalidades, que permitem com que o visitante passeie pela história do Estado, está a figura de Esperança Garcia, uma mulher escravizada que viveu no Piauí no século XVIII. Se o nome ainda soa desconhecido para quem ler ou vê a imagem, ignorando a força desta personagem, um intenso movimento tem, numa crescente, tirado a memória de Esperança desse espectro de esquecimento. Por isso, hoje, no dia da Consciência Negra, 20 de novembro, o Jornal O DIA debate como a retomada histórica faz com que, no presente, o conhecimento de trajetórias como a de Esperança Garcia impulsionem transformações na atualidade.

Escultura de Esperança Garcia integra acervo da Central de Artesanato Mestre Dezinho. Foto: Jailson Soares/ODIA

“A resistência, a divulgação da história de Esperança Garcia não é por acaso. Sabemos que existe toda uma estrutura que tende a invisibilizar as histórias dessas vozes e memórias de mulheres negras que resistiram à escravidão. O nosso trabalho tem sido o de fortalecer a movimentação contra este cenário. O que a gente tem feito é se engajar, se implicar, e contar a verdade sobre a escravidão no Piauí e visibilizar a nossa história, porque essa memória nos ajuda a enfrentar os problemas do presente”, explica a professora da Universidade Estadual do Piauí e mestre em Direitos Humanos, Andreia Marreiro.

Dar reconhecimento a essa e tantas outras histórias de pessoas negras se torna uma tônica para reparar os séculos de silêncio a respeito das mesmas. A história de Esperança Garcia, que viveu na Fazenda Algodões, no Sul do Piauí, só veio ao conhecimento público na década de 70, quando o historiador e antropólogo Luiz Mott, encontrou a carta produzida por Esperança em 1770, na qual a escrava - que aprendeu a ler e a escrever com os padres jesuítas, denunciava ao governador da província os maus-tratos que sofria.

Esse fato e outros tantos que aconteceram nos últimos 40 anos consegue, aos poucos, que a memória de Esperança Garcia seja, pelas vozes das muitas pessoas engajadas com os movimentos negros no Estado, rememorada em sua grande importância.

A primeira advogada piauiense

Ano passado, Esperança ganhou um título que potencializou ainda mais a força de sua história: ela é condecorada com o título simbólico de primeira mulher advogada do Piauí. “Através de um trabalho de pesquisa da Comissão da Verdade da Escravidão Negra da OAB-Piauí, conseguimos constatar que esse documento encontrado era mais que uma carta, era uma petição, porque ela tem um endereçamento, ela tem uma descrição dos fatos, ela tem todo um fundamento jurídico. A estrutura era de uma petição e o fundamento também. Vemos que ela não pede liberdade, ela pede a possibilidade de ter uma vida digna, ela foi uma mulher que enfrentou as opressões que viveu à época e, orgulhosamente, pode ser chamada de advogada piauiense”, explica Andreia.

A carta foi transformada em símbolo da resistência negra e tem sido peça fundamental na construção da identidade afro no Estado. Outro grande marco acontece também em 2017, quando o Memorial Zumbi dos Palmares, no Centro de Teresina, passa a se chamar Esperança Garcia. Na entrada do memorial, a imagem de Esperança Garcia grafitada junto com o texto da sua carta original solidifica a marcação dessa memória.

Além de tudo, Esperança tornou-se símbolo de resistência, o dia 6 de agosto, dia em que a carta foi escrita, data de celebração da consciência negra no Piauí. Atualmente, campanhas de grupos negros, ações em escolas e pesquisas sobre a história de Esperança continuam demarcando a potência da história da escrava.

Campanha Esperançar destaca produção de autoras negras

Da mesma forma que Esperança Garcia é visibilizada através do esforço conjunto de pessoas e instituições que tiraram do véu do esquecimento a trajetória da advogada, outras personagens negras também são colocadas no centro da atenção para garantir que a representatividade impulsione vidas de pessoas negras na atualidade. É com esse enfoque que a Campanha Esperançar estimula a leitura de autoras negras, agora, principalmente, para jovens da periferia da cidade.

“Tem um processo de um racismo estrutural que sempre coloca as pessoas negras em um lugar estereotipado. Temos a presença das mulheres ligada a um estereótipo das serviçais, empregadas domésticas, da mãe preta que cuida da sua e da casa da patroa, ou da mulher hipersexualizada como essa figura icônica da globeleza. Da mesma forma o homem, que é visto como o vagabundo, criminoso ou o hipersexualizado. Então, queremos mostrar a outra parte da história. 

As produções de pessoas negras falando sobre elas mesmas”, destaca Andreia Marreiro, que criou a campanha em maio deste ano, após a morte de Marielle Franco, no intuito de incentivar o conhecimento de produções feitas por pessoas negras. Agora, o objetivo é que a Campanha arrecade livros que serão doados a escolas públicas.


Andreia está coletando doações de livros de autoras negras. Foto: Jailson Soares/ O DIA

“A gente tem um processo de fortalecimento muito grande dessa representatividade e encorajamento dessa infância e juventude. Encorajamento de que ela pode ser quem elas querem ser, que elas não estão reduzidas a esses estereótipos, que elas podem sonhar e ser do tamanho de seus sonhos”, reforça Marreiro.

Para participar, as pessoas devem fazer doações de livros novos ou usados de autoras negras que serão entregues, em um primeiro momento, à escola na R N Monteiro Santana, na Vila Irmã Dulce. Os postos de arrecadação estão na Livraria Entrelivros, no Memorial Esperança Garcia e através de doação em dinheiro, a partir de R$ 20, para a conta Banco do Brasil, Agência: 4708-2, Conta: 6126-3.

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Por: Glenda Uchôa

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