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O inimigo está em Moscou. A dúvida, em Washington

Por: Jefferson Campelo

13/07/2026 às 11h59

A reunião da OTAN em Ancara ocorre sob o signo de uma contradição inquietante: a Aliança quer ampliar seu poder militar justamente quando cresce a dúvida sobre sua coesão política. O tema central é o rearmamento, mais investimentos, mais produção de armas, maior capacidade logística e menor vulnerabilidade estratégica. Mas, por trás dessa corrida, há uma questão que já não pode ser ignorada, ou seja, até que ponto a Europa ainda confia nos Estados Unidos?

Durante décadas, a segurança europeia repousou sobre a certeza de que Washington estaria presente no momento decisivo. Com Donald Trump, essa garantia tornou-se menos previsível.

Ao criticar, em tom áspero e pouco diplomático, a falta de apoio dos aliados na guerra contra o Irã e destacar de maneira quase personalista o papel do presidente turco, Recep Tayyip Erdoğan, Trump voltou a tratar alianças históricas sob a lógica da lealdade imediata. Para uma organização fundada na previsibilidade da defesa coletiva, esse comportamento é corrosivo.

É nesse contexto que o discurso de Mark Rutte (Secretario-Geral da OTAN) ganha maior importância. Sua defesa de mais gastos militares, maior produção de armamentos e preparação acelerada diante das ameaças externas tem a Rússia como justificativa evidente. Mas existe uma leitura mais profunda. A Europa não se arma apenas porque teme Moscou; arma-se também porque já não sabe o que esperar de Washington.

Rutte dificilmente diria isso de forma explícita. Não precisa. Os movimentos da própria OTAN revelam a inquietação. Ao buscar mais autonomia, fortalecer sua indústria de defesa e reduzir dependências estratégicas, a Europa constrói uma espécie de seguro contra a imprevisibilidade americana.

E ninguém se beneficia mais dessa desconfiança do que Vladimir Putin.

O presidente russo não precisa derrotar militarmente a OTAN para enfraquecê-la. Basta ampliar a dúvida entre seus membros. Cada atrito entre Trump e os aliados europeus, cada ameaça de abandono e cada suspeita sobre a solidez do compromisso americano representam uma oportunidade para Moscou.

Há, naturalmente, um paradoxo. A pressão de Trump pode obrigar a Europa a assumir responsabilidades que durante décadas transferiu aos Estados Unidos. Uma Europa mais armada e autônoma poderá, no futuro, tornar-se um adversário ainda mais difícil para a Rússia. Mas essa transformação exige tempo, e é justamente durante períodos de transição que potências como a Rússia testam limites e exploram divisões.

A reunião de Ancara, portanto, não trata apenas de armas. Trata de confiança.

Trump pode ter razão ao exigir que os aliados gastem mais com sua própria defesa. Mas existe uma diferença entre cobrar responsabilidade e destruir previsibilidade. Ao pressionar por mais investimentos, pode fortalecer os exércitos europeus. Ao transformar alianças em relações pessoais e condicionais, pode enfraquecer a própria OTAN.

No Kremlin, Putin observa.

A OTAN pode sair de Ancara com mais armas. A questão é saber se sairá com mais unidade. Porque arsenais fortalecem exércitos. Mas só a confiança sustenta alianças.

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