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“O amor verdadeiro não tem distância": como casais que desafiaram os julgamentos encontraram seu caminho

Casais que enfrentaram distância, desconfiança e julgamentos contam como transformaram críticas em parceria e resolveram apostar no amor (e ganharam a aposta).

12/06/2026 às 09h26

Em um tempo em que relacionamentos são comentados, julgados e até fiscalizados pelas redes sociais, alguns casais precisaram enfrentar mais do que os desafios naturais da convivência. Eles tiveram de lidar também com dúvidas, opiniões não solicitadas e previsões de fracasso e, ainda assim, seguiram juntos. No Dia dos Namorados, histórias de casais que apostaram no amor mesmo quando muita gente acreditava que não daria certo mostram que a força de uma relação nem sempre está na ausência de obstáculos, mas na forma como eles são enfrentados.

A psicóloga especialista em relacionamentos Sileli Santiago explica que a influência das opiniões externas pode ser mais profunda do que parece. Segundo ela, os seres humanos buscam pertencimento, validação e segurança, o que faz com que o olhar dos outros tenha peso sobre as decisões afetivas. “O problema é quando essa validação externa começa a falar mais alto do que a própria experiência do casal”, afirma.

Jessika Teixeira e Jeff Gomes - (Reprodução/Arquivo Pessoal) Reprodução/Arquivo Pessoal
Jessika Teixeira e Jeff Gomes

Quando a relação não possui bases sólidas de confiança e comunicação, críticas constantes podem provocar insegurança e dúvidas. “O impacto é diretamente proporcional à fragilidade da comunicação e da confiança que existe entre esses parceiros”, observa a especialista.

Foi justamente contra esse tipo de desconfiança que Karina Viveros e Arthur Oliveira precisaram lutar. Os dois são brasileiros, mas se conheceram em Londres, capital da Inglaterra, durante um intercâmbio que inicialmente nem tinha qualquer intenção romântica.

Karina e Arthur se conheceram em fevereiro de 2022, durante um intercâmbio em Londres. Ela havia planejado o curso desde 2020, mas a pandemia adiou tudo. Quando finalmente chegou à capital britânica, no seu próprio aniversário, foi apresentada à cidade pelo rapaz que guardaria sua mala enquanto ela viajava pela Europa.

O tour pelo Big Ben, a Troca da Guarda e a London Eye virou jantar, virou beijo no Valentine's Day do dia seguinte, virou um relacionamento que nenhum dos dois esperava. "Era para ser só um romance de intercâmbio, um romance de verão", ela lembra, rindo.

O romance, porém, veio acompanhado de uma realidade difícil. Ela morava em Recife e ele vivia em Londres havia mais de uma década. Além da distância física, surgiram comentários de todos os lados e, segundo ela, aa críticas quase sempre chegavam disfarçadas de brincadeiras. “Era sempre gracinhas. Isso vai dar certo? Vocês vão aguentar? Cuidado, viu?”, conta.

Entre os comentários que ouviu, um marcou profundamente. Algumas pessoas insinuavam que ela estaria com Arthur apenas para conseguir um visto de residência no Reino Unido. “Esse foi o comentário que mais doeu porque não duvidava do relacionamento. Duvidava da minha índole, dos meus sentimentos”, afirma.

Karina Viveiros e Arthur Oliveira - (Reprodução/Arquivo Pessoal) Reprodução/Arquivo Pessoal
Karina Viveiros e Arthur Oliveira

O que tornou possível a continuidade foi uma combinação de fatores práticos e emocionais. Karina trabalhava remotamente na época, o que lhe deu mobilidade. Ela negociou com seu gestor para ficar mais seis meses em Londres. Avaliou o mercado de trabalho britânico para sua área, auditoria, e viu que as oportunidades eram boas e que não precisaria pausar a carreira.

Mas acima de tudo, havia videochamadas todas as noites, conversas diárias pelo WhatsApp, a presença um na vida do outro mesmo separados por oceano. "A gente tentava fazer com que o nosso dia tivesse a presença um do outro. O que acontecia no trabalho, eu contava pra ele. Uma novidade, uma fofoca, eu ia e contava. Como se fosse um relacionamento presencial”, revela.

Menos de um ano depois de se conhecerem, decidiram se casar. Quando voltou ao Brasil para solicitar o visto de esposa, a espera foi a parte mais difícil. Cinco meses sem saber quando a aprovação viria, sem conseguir comprar passagem, com a ansiedade do incerto. "Ele sempre dando força. 'É só uma fase ruim, depois a gente vai rir disso, depois a gente nunca mais vai se separar. Ele sempre confiante'", conta Karina.

Foi somente nesse momento que muitas pessoas passaram a acreditar que a relação realmente era séria. Hoje, quatro anos e meio depois daquele primeiro encontro em Londres, eles são casados e têm uma filha de seis meses.

Karina resume com a leveza de quem já passou pela tempestade e está do outro lado. "Quando quer, a gente faz acontecer. A gente consegue, a gente é prova viva. É levar os julgamentos na brincadeira, não se abalar. Obviamente, aquele que é mais sério, cortar relações e seguir. Mas o amor, no final, vale a pena”, diz ela.

A filhinha de seis meses brincando ao fundo, durante a entrevista, parecia confirmar.

Karina Viveiros e Arthur Oliveira - (Reprodução/Arquivo Pessoal) Reprodução/Arquivo Pessoal
Karina Viveiros e Arthur Oliveira

Sete horas de estrada e um plano de vida em comum

A história de Jessiká Teixeira e Jeff Gomes começa de forma diferente, mas passa pelo mesmo território de dúvidas e críticas e também enfrentou as previsões pessimistas que costumam acompanhar relacionamentos à distância.

Eles se conheceram durante um congresso acadêmico em São Luís, no Maranhão. Jéssika, que mora em Teresina, estava na cidade para apresentar um artigo científico quando os dois, assim como Karina e Arthur, foram apresentados por amigos em comum.

O que começou com conversas sobre filmes, livros e música continuou mesmo depois que ela voltou para o Piauí.

“Mesmo depois que retornei para Teresina, a gente seguiu conversando muito todos os dias e foi percebendo que essa compatibilidade se estendia também a sonhos e valores pessoais”, conta.

Mas o relacionamento precisou enfrentar uma distância de aproximadamente sete horas de viagem de ônibus entre as duas capitais. Além das próprias inseguranças do casal, vieram os comentários externos.

Jessika Teixeira e Jeff Gomes - (Reprodução/Arquivo Pessoal) Reprodução/Arquivo Pessoal
Jessika Teixeira e Jeff Gomes

“Sempre ouvíamos que namoro à distância não dá certo, que ia ser só perda de tempo, que não valia a pena”, lembra Jéssika.

As viagens aconteciam, em média, a cada quinze dias. Os dois revezavam quem faria o trajeto, equilibrando custos, tempo e rotina. O período mais difícil veio durante a pandemia de Covid-19 quando, por conviverem com pessoas que possuíam comorbidades, decidiram suspender completamente os encontros presenciais.

A partir daí, foram sete meses sem se ver. Ainda assim, a ideia de desistir nunca ganhou força. “A vontade de ficar junto sempre foi maior que as dificuldades”, revela Jéssika. Quando o período de isolamento terminou, o casal tomou uma decisão definitiva e Jeff se mudou para Teresina, para que os dois pudessem viver juntos.

Anos depois, quando Jéssika foi aprovada em um concurso público em São Paulo, foi a vez de Jeff reorganizar novamente a própria vida para acompanhá-la. Segundo ele, a família apoiou a decisão, embora a mãe tenha demonstrado preocupação. “Todos nos apoiaram por entender o quanto estávamos compromissados um com o outro”, conta.

Hoje casados, os dois atribuem a longevidade da relação a fatores simples, mas fundamentais. “Uma boa comunicação e o respeito são essenciais”, resume Jéssika.

Jeff complementa que o casal sempre estabeleceu acordos claros para fazer a distância funcionar. “Nós combinávamos de telefonar todos os dias, principalmente antes de dormir, para falar como foi o dia e dar boa noite.”

Quando o casal vira uma equipe

Para a psicóloga Sileli Santiago, existe um padrão entre os relacionamentos que conseguem sobreviver às críticas externas. Segundo a especialista, os casais mais resilientes costumam ter três pilares fundamentais: comunicação clara, alinhamento de valores e maturidade emocional.

Sileli Santiago, psicóloga especialista em relacionamentos - (Reprodução/Arquivo Pessoal) Reprodução/Arquivo Pessoal
Sileli Santiago, psicóloga especialista em relacionamentos

“Os casais que se fortalecem conseguem usar a crítica como oportunidade de crescimento. Já os que têm uma base mais fragilizada tendem a ter dificuldades de diálogo e dependência da validação externa”, explica.

A especialista afirma que a chave está em encarar os desafios como um problema compartilhado, e não como uma disputa interna. “Em vez de eu contra você dentro da relação, o casal precisa funcionar como nós contra o problema”, aconselha.

Ela também faz um alerta sobre os sinais de que as opiniões externas estão ocupando espaço demais dentro do relacionamento. Entre eles estão a necessidade constante de justificar a relação, discussões frequentes motivadas por terceiros e a sensação de que existem muitas pessoas interferindo nas decisões do casal.

Para Sileli, o sucesso de uma relação não está na ausência de conflitos. “O sucesso não é a ausência de problemas. É a forma como o casal lida com esses problemas”, afirma.

Talvez seja por isso que histórias como as de Karina e Arthur, ou de Jéssika e Jeff, despertem tanta identificação. Em comum, elas não têm apenas a distância geográfica. Têm a escolha diária de permanecer, a decisão de continuar conversando quando seria mais fácil desistir, e a capacidade de fazer algo cada vez mais raro em tempos de opiniões instantâneas e julgamentos permanentes: ouvir a própria história mais alto do que o barulho dos outros.

É justamente isso que tantas histórias de amor ensinam e que, tantas vezes, acabamos esquecendo em meio aos julgamentos externos. Relacionamentos duradouros não são feitos de perfeição, mas sim construídos por pessoas reais, que erram, se frustram, dizem coisas que não gostariam de ter dito e, ainda assim, escolhem permanecer. A intimidade não está na ausência de falhas, mas na possibilidade de ser imperfeito e continuar encontrando acolhimento, de ser visto também nos dias difíceis e, mesmo assim, não deixar de ser amado.

Para quem olha de fora, histórias como as de Karina e Arthur ou de Jéssika e Jeff podem parecer apenas casamentos felizes. Mas o que existe por trás delas é algo menos cinematográfico e, talvez por isso mesmo, mais valioso. São duas pessoas aprendendo, dia após dia, a construir uma vida em comum. Um amor que não sobrevive porque é perfeito, mas porque resiste. Que não se sustenta em grandes declarações, mas em escolhas repetidas. Um amor que, visto de longe, parece comum. Por dentro, porém, tem a dimensão silenciosa de um pequeno milagre.

Com edição de Nathalia Amaral