"œNão é algo que você consegue superar", diz vítima de estupro

A vítima diz que nunca procurou justiça por medo e vergonha de contar a sua história.

30/08/2020 13:03h - Atualizado em 31/08/2020 09:15h

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“Tudo acontecia durante a tarde. Depois do almoço, minha família costumava se recolher nos seus quartos para cochilar antes de continuar as atividades do dia. Era nesse horário que meu tio me levava para o quarto e abusava de mim”, conta Letícia Silva*, um jovem de 30 anos, vítima de abusos sexuais dos quatro aos dez anos pelo próprio tio.


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Letícia revela que demorou 15 anos para conseguir contar pela primeira vez o que acontecia no quarto dos fundos da casa da avó para amigos. Durante muitos anos, a jovem se sentiu culpada pelos abusos, porque foi convencida pelo seu agressor de que ela era culpada e, se revelasse para alguém, ninguém acreditaria nela.

A vítima diz que nunca procurou justiça por medo e vergonha de contar a sua história. Mesmo 20 anos depois do último estupro, Letícia ainda não conseguiu superar o trauma e faz terapia e uso de medicamentos controlados para conseguir realizar suas atividades cotidianas.

"Não é algo que você consegue superar e levar a vida como se não tivesse acontecido"

“Casos como esse que aconteceu no último final de semana no Espírito Santo sempre despertam um sentimento de revolta em mim, eu lembro nitidamente de tudo que sofri, sinto como se estivesse vivenciando tudo novamente. Não é algo que você consegue superar e levar a vida como se não tivesse acontecido”, lamenta.

O trauma causado pela violência sexual e o medo de buscar justiça são alguns dos fatores que levaram a vítima a desenvolver depressão profunda e transtorno de ansiedade generalizada. Além disso, o fato de não ter denunciado seu abusador ou ter revelado para a família sobre os crimes sofridos, faz com que a vítima ainda encontre com o agressor nos encontros de família.

"Não consigo denunciá-lo, mesmo sabendo que não sou culpada do que aconteceu, ele ainda consegue exercer essa violência psicológica sobre mim"

“Sempre que eu o vejo é como se eu me tornasse novamente aquela criança indefesa. Mesmo depois de tantos anos ele ainda consegue me impor medo. Não consigo denunciá-lo, mesmo sabendo que não sou culpada do que aconteceu, ele ainda consegue exercer essa violência psicológica sobre mim”, afirma.

Disque 100

O Disque 100 funciona 24 horas por dia para receber denúncias de violações de direitos de crianças e adolescentes. Em Teresina, os casos também podem ser denunciados nos cinco Conselhos Tutelares divididos entre todas as zonas da Capital.

Após a denúncia, o Conselho Tutelar irá fazer a averiguação para que não aja violação de direitos. Caso a denúncia se confirme, o caso é encaminhado para a Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA), que por sua vez irá encaminhar a vítima para o Serviço de Atendimento às Mulheres Vítimas de Violência Sexual (SAMVVIS), em caso de vítima do gênero feminino, e para o Instituto de Medicina Legal (IML), em caso de vítima do gênero masculino.

Segundo a conselheira Carla Shirlene, do Primeiro Conselho Tutelar, localizado na zona Norte e Centro, na maioria das vezes o abusador é membro da família da vítima. "É sempre alguém próximo, que mora ou que tem muito contato com a família. No caso de confirmação da denúncia, esse agressor é imediatamente preso e indiciado, e será julgado pelo seu crime", destaca.
Somente em 2018, o Primeiro Conselho Tutelar chegou a registrar 48 denúncias de abuso sexual infantil, destas, 18 casos foram confirmados.

*Nome fictício usado para proteger a identidade da entrevistada.

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Por: Nathalia Amaral

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