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179 trabalhadores já foram resgatados em indústrias de cera de carnaúba

Audiência discute trabalho escravo e propõe assinatura de Termos de Ajuste de Conduta (TAC) aos empresários do segmento

17/05/2016 07:36

Em dois anos do Projeto Palha Acolhedora, que inspeciona empresas da indústria da cera de carnaúba no Piauí, 179 trabalhadores foram resgatados em condições análogas à de escravo em loteamentos e fazendas em diversos municípios do Estado. Segundo a Superintendência Regional do Trabalho e Emprego (SRTE), durante a safra da carnaúba, mais de 100 mil trabalhadores são inseridos nesta atividade econômica.


Foto: Moura Alves/ODIA


Durante a audiência realizada ontem (16) na SRTE, estiveram presentes representantes de cerca de 10 empresas notificadas, além de procuradores e representantes de entidades não governamentais. O objetivo da reunião era discutir a temática e propor aos empresários da área a assinatura de Termos de Ajuste de Conduta (TAC), onde serão efetivados o cumprimento dos direitos trabalhistas aos profissionais que trabalham coletando o pó da carnaúba.

A procuradora do Trabalho, Maria Elena Rêgo, conta que, durante as vistorias, foram encontrados trabalhadores exercendo a profissão sem carteira assinada e que a situação e condições de trabalho eram extremamente precárias. Segundo ela, os trabalhadores não possuíam equipamentos de proteção individual, os alojamentos eram precários ou sequer existiam, obrigando os trabalhadores a dormirem sob as árvores. Além disso, a alimentação era precária, sem qualquer condição de higiene, bem como a água que era armazenada em recipientes de agrotóxicos, assim como as instalações sanitárias, entre outros.

“Esses casos terminaram sendo caracterizados com uma situação de trabalho análoga à de escravo. Ao longo de dois anos, foram feitos cerca de 200 resgates de trabalhadores, então começamos a conversar com todos os envolvidos nessa cadeia produtiva, como produtores, donos de fazendas, os intermediadores, porque muitas vezes quem compra o pó da carnaúba e vende para a indústria não é o dono da fazenda nem o produtor, ele só faz a intermediação, mas ele também contribui para essa situação. A indústria é o último elo dessa cadeia, mas ela também é responsável”, disse.

Maria Elena Rêgo ainda afirma que o objetivo da audiência é buscar o compromisso das indústrias com o Ministério Público no sentido de evitar que essas práticas tornem a acontecer, no intuito de certificar que o produto que está sendo adquirido é de empresas que cumprem os direitos trabalhistas.

Casos

O procurador do Ministério Público do Trabalho (MPT/ PI), José Wellington de Carvalho, citou práticas de trabalho escravo que aconteciam em cidades do litoral piauiense, como Luís Correia, Luzilândia e na região de Picos, e relatou a condição em que esses trabalhadores eram obrigados a sustentar.

“Esses trabalhadores se alimentam basicamente de farinha e rapadura, recebem uma porção de banha de porco para colocar no feijão e isso é o que eles comem em todas as refeições. Eles não têm onde colocar a comida, dividem espaços com animais e dormem em redes embaixo de árvores. Na Praia do Arrombado (em Luís Correia), o trabalho acontece em período de alta temporada e muitos trabalhadores vêm de Granja (CE)”, disse.

José Wellington de Carvalho enfatizou que este trabalho também está sendo realizado em outros estados, como Ceará e Maranhão, e acrescentou que já foram instaurados inquéritos civis e firmados TACs com empresas e produtores para regularizar a situação dos trabalhadores.


Por: Isabela Lopes - Jornal O DIA
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