Aborto paterno interfere diretamente no desenvolvimento da criança

Mães relatam os desafios de assumir o duplo papel de mãe e pai na criação dos filhos.

21/02/2016 08:20h - Atualizado em 21/02/2016 08:54h

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Antes mesmo de nascer, quando a mãe descobre a gravidez, a espera do nascimento de uma criança já é aguardada ansiosamente. A família cria expectativa de como será o sorriso do bebê, o tom da sua voz, se será esperto ou mais tranquilo, quando ele dará os primeiros passos. O enxoval é comprado e bordado com carinho, a casa é preparada como se tivesse para chegar alguém da realeza.

Depois de alguns meses, que parecem uma eternidade, o bebê sente, pela primeira vez, como é o mundo aqui fora. Ele começa a chorar e prontamente é acolhido pela mãe e pelos familiares, com bolo doce, amor, alegria e muitas roupinhas que, de tão pequeninas, cabem na palma da mão.

Cuidar dessa nova vida que está surgindo é uma responsabilidade imensa para os pais. Mesmo se a vinda do bebê foi ou não planejada, quando a mulher se descobre grávida e opta por ter a criança, ela, muitas vezes, imagina que seu parceiro estará presente nos principais momentos, segurando sua mão e oferecendo carinho para ela e para o bebê. Entretanto, por diversos motivos, isso não acontece e o pai da criança vem a abandonar a mãe e seu futuro filho. O homem, que na teoria era para registrar seu filho e assumir a paternidade, na prática, acaba por registrar um aborto paterno e assumir a figura de ausente na vida de mais uma nova pessoa que está crescendo. As brigas pontuais entre um casal são um dos principais fatores que levam ao rompimento do relacionamento e, consequentemente, ao aborto paterno.

Viviam* é mãe do pequeno Davi*, de 7 anos. Ela conta que, mesmo antes de descobrir que estava grávida, seu relacionamento com o pai da criança já estava passando por momentos de instabilidade, o que, futuramente ocasionou no abandono da criança por parte do pai. “O relacionamento não estava bom desde antes da gravidez. Mas no começo da gestação, o nosso relacionamento voltou ao normal. Só que depois, a gente começou a brigar, ele bebia e me fazia passar raiva e isso fez com que eu me afastasse dele mais e mais”, revela Viviam.

O nascimento de Davi, em 2009, mudou a vida de Viviam. A criança chegou para preencher todos os espaços vazios de amor dentro do coração de sua mãe. Nos primeiros meses, o pai do bebê se fazia presente, mas aos poucos, ele já manifestava a falta de interesse em se manter ali sempre ao lado. “Quando o Davi nasceu, o pai dele ficou por perto por no máximo um mês, e então ele voltou a me fazer raiva e daí foi a gota d’água”, afirma Viviam. Após esse curto espaço de tempo, o pai de Davi se afastou durante dois anos, pois foi trabalhar em outro Estado e passou a morar distante.

Viviam conta que, quando o pai de Davi regressou a Teresina, ele manifestou o interesse de ver seu filho, manter contato. Entretanto, isso durou pouco tempo, igual à época em que Davi havia nascido. Viviam resolveu então tomar a decisão de pedir para que o pai de seu filho se afastasse por completo e, desde abril do ano passado, ele se ausentou definitivamente.

Viviam afirma que, durante esses sete anos assumindo o papel duplo de mãe e pai do Davi, ela não sente falta da figura paterna ao seu lado. Para ela, o que mais dói, é ver que o seu filho imagina o pai de uma forma completamente diferente do que ele é de verdade. “O Davi imagina o pai dele de um jeito, mas é uma imagem que não existe. Na cabeça dele, ninguém pode substituir a figura paterna do seu pai, nem o próprio avô, que é quem convive com ele diariamente”, revela.

A mãe de Davi planeja contar para o filho toda a verdade, mas aguarda o momento o ideal, quando ele estiver mais velho e conseguir assimilar de forma menos traumática a ausência do pai.

Mãe cuida de gêmeas com paralisia cerebral sem o apoio do pai

De acordo com dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), com base no Censo Escolar de 2011, cerca de 5,5 milhões de crianças brasileiras não possuem o nome do pai na certidão de nascimento. Ter o nome do pai neste documento é um direito à personalidade e à identidade de toda criança. Entretanto, a paternidade vai muito além do registro. Se o pai deve registrar o filho e ajudar nos gastos financeiros dele, também é necessário que ele se mantenha presente, ofereça carinho, atenção e muitos ensinamentos ao longo de toda a criação.

Foto: Jailson Soares/ODIA

Quando o pai não assume a responsabilidade, a mãe acaba exercendo o papel duplo. É o caso de Marluci Coelho, de 27 anos, mãe de duas gêmeas, que foi abandonada pelo pai da criança ainda na gestação. “Com seis meses de gravidez, ele me deixou alegando que, por eu estar doente, eu não dava a atenção devida a ele”, afirma. Marluci conta que estava com citomegalovírus, o que acabou ocasionando a paralisia cerebral das suas duas filhas.

Nos primeiros meses de rompimento, Marluci afirma que tentou reatar o relacionamento com o pai das gêmeas, mas sem sucesso. “Ele já tinha outra família”, revela. Ela então teve que assumir toda a responsabilidade com as crianças, sozinha e com o apoio da família. O baque com o descoberta da doença das gêmeas foi muito forte. Marluci, por um momento, desabou e não quis acreditar.

Devido à paralisia cerebral das duas crianças, adquiridas durante a gravidez, Marluci teve que deixar o emprego de vendedora para se dedicar integralmente às gêmeas, que atualmente possuem 5 anos.

Marluci vivia com o pai das meninas há 8 anos. Os dois passaram a morar juntos quando o primeiro filho, que atualmente tem 7 anos, nasceu. A ex-vendedora conta que, após o rompimento da relação, por não conseguir sustentar três crianças, seu filho mais velho passou a viver com a avó paterna e que, mesmo assim, o pai da criança também não é presente na vida do menino. “Às vezes, a mãe do pai do meu filho obriga ele a levar a criança para a escola, mas nem isso acontece com tanta frequência”, afirma.

Mesmo já não sentindo tanta falta do ex-marido, a ausência do pai das pequenas é notada diariamente por Marluci. “Se ele não tivesse me abandonado, eu creio que ele ia me ajudar com as coisas das meninas. Porque eu preciso de ajuda para levar elas para as consultas, eu preciso de dinheiro para comprar os remédios”, revela.

Marluci sobrevive atualmente apenas com dois salários mínimos, que cobrem somente as despesas das gêmeas e, muitas vezes, acaba o dinheiro antes do final do mês. Às vezes, ela recebe ajuda financeira de amigos e familiares. Apesar do custo altíssimo que é conseguir manter duas crianças com necessidades especiais, Marluci é uma mãe dedicada, que se fortalece diariamente com o sorriso das suas gêmeas. 


*Confira a matéria na íntegra na edição deste domingo do Jornal O DIA

Edição: Aldenora Cavalcante - Jornal O DIA

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