Dia Nacional da Adoção: “Eu queria ser pai, independente de qualquer coisa”

Conheça a história de Fabrício Barbosa, assistente social que adotou o pequeno João, de 4 anos

25/05/2022 08:15h - Atualizado em 25/05/2022 08:28h

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Nesta quarta-feira (25), é celebrado o Dia Nacional da Adoção. Uma data que chama atenção, não somente para o ato de adotar uma criança ou adolescente, mas de abrir o coração para amar e se doar para o outro. Receber de braços abertos e criar vínculo com quem não foi, biologicamente gerado por você, pode parecer uma tarefa difícil, mas, quando se escolhe doar amor, todos os obstáculos são superados.

É o que garante Fabrício César Barbosa (47), assistente social, gastrônomo e pai do João. A história deles inicia em 2013, enquanto Fabrício fazia uma visita ao Centro de reintegração Familiar e Incentivo à Adoção (Cria). Ao concluir o trabalho que realizada na instituição, decidiu tirar dúvidas sobre o processo de adoção e manifestou seu interesse em ser pai.

Fabrício César Barbosa (47), assistente social, gastrônomo e pai do João (Foto: reprodução/Arquivo pessoal)

“Esse desejo veio ainda na faculdade, onde abordei o tema adoção em um trabalho. Eu precisava ter uma certa maturidade e independência financeira, então fui amadurecendo a ideia. Resolvi esperar e, aos 38 anos, dei o primeiro passo. Procurei o Cria para ser orientado, pois não conhecia o processo. Fui apresentado a algumas crianças que fugiam do padrão já esperado, pois eu já tinha dito que não queria esse perfil, eu queria ser pai. A gente não escolhe um filho, ele chega até nós, a gente acolhe, abraça e ama”, conta.

Fabrício Barbosa lembra que, no instante que viu a foto de João, com 4 anos na época, teve a certeza de que o garoto seria o tão desejado filho. Diferente das demais crianças do abrigo, o pequeno João não queria deixar a instituição. Para ele, aquele era o local de proteção e acolhimento, e coube a Fabrício mudar esse pensamento de João, respeitando seu tempo e lhe mostrando que, daquele coração, só viriam coisas boas.

“Resolvi respeitar o tempo dele. Fui no abrigo, o conheci pessoalmente, ele me pediu um abraço quando me viu e eu tive ainda mais certeza que era ele. Dei entrada no processo de guarda, que demorou cinco meses, de destituição familiar e no processo de adoção, que demorou quatro anos, mas ele já estava comigo. Quando eu vi a foto do João eu tive a certeza que era meu filho e até hoje nunca tive essa dúvida, pelo contrário, cada dia renova mais a certeza de que ser pai é algo que não tira férias. É ser pai 365 dias por ano”, relata o assistente social. 

Fabrício Barbosa buscou o Cria para tirar dúvidas sobre o processo de adoção (Foto: Assis Fernandes)

Segundo Fabrício Barbosa, o processo de adaptação foi mais tranquilo do que o esperado e logo ele e João se acolheram mutuamente. Para tornar este processo ainda mais agradável para os dois, o assistente social explica que sempre foi verdadeiro com o filho, especialmente no que se refere à adoção.

“Apesar de trazer essa característica, de achar que o abrigo era seu lugar de proteção, quando ele se sentiu seguro, o sentimento de pertença dele foi tão forte, porque ele viu que tinha uma família, um pai, aí o medo foi passando. Sempre trabalhei com ele esse processo da verdade, e isso é muito importante para cativar. É um direito da criança. Para ele poder constituir a própria identidade dele, como que eu poderia mentir? A primeira coisa que ele iria perguntar era pela mãe, porque ainda se tem essa ideia de que uma família tradicional é formada por pai, mãe e filhos”, complementa Fabrício Barbosa.

No Piauí, há 39 crianças e adolescentes disponíveis para adoção

Segundo dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o Brasil possui quase 30 mil crianças e adolescentes vivendo em abrigos, com apenas quatro mil disponíveis para adoção, e 33 mil pretendentes habilitados. No Piauí, há 193 crianças e adolescentes acolhidos em abrigos, mas somente 39 estão disponíveis para serem adotadas e 35 aguardam o processo de adoção. Atualmente, 143 pretendentes estão disponíveis para adotar no Estado.

Para a coordenadora do Cria, Francimélia Nogueira, essa conta não fecha por diversos motivos, sendo o principal deles a demora dessas crianças e adolescentes vivendo nas instituições de acolhimento. Segundo ela, o sistema de proteção da criança e do adolescente não consegue cumprir com os prazos do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que determina que a criança deve ficar abrigada, no máximo, por 1 ano e meio.

Francimélia com Ana Clara Nogueira, adotada com 1 anos e 10 meses. Hoje, aos 21 anos, cursa fisioterapia (Foto: reprodução/Arquivo pessoal)

“As crianças ficam crescendo nas instituições de acolhimento, e não saem de forma rápida porque geralmente fazem parte de grupos de irmãos, de adolescentes, crianças com deficiência, perfil que a maioria dos pretendentes não deseja adotar, que é um perfil de crianças pequenas, brancas e saudáveis. São dados que nos entristecem porque demonstram que é preciso fazer alguma coisa para que esses processos sejam mais céleres e que essas crianças não fiquem vivendo nos abrigos à espera de uma família que não vai chegar, porque a família biológica deles já teve tempo suficiente para se reorganizar e colocar essa criança e adolescente como prioridade. Se não o fizeram, essas crianças precisam ir para adoção”, reforça Francimélia Nogueira.

Francimélia Nogueira com as filhas e neta (Foto: reprodução/Arquivo pessoal)

Apenas 3% das crianças que chegam aos abrigos são órfãos. Em geral, elas são acolhidas após terem sofrido alguma violação de direito, como negligência, abuso ou abandono. Quando essas crianças são direcionadas para um abrigo, como medida de proteção, o Estado tem a obrigação de procurar, prioritariamente junto à família biológica, e, se não for possível com o núcleo familiar, junto à família extensa, mas dentro do prazo do ECA.

A adoção só é autorizada após estudo realizado por uma equipe técnica. Assim, é iniciado o processo de destituição, uma etapa bastante demorada, culminando com a disponibilização do nome dessa criança no Sistema Nacional de Adoção (SNA), no qual o pretendente que deseja aquele perfil será chamado para adotá-la

Adotar é um ato de amor

A pessoa que estiver decidida a adotar, deve procurar informação e iniciar o processo na Defensoria Pública. O pretendente será encaminhado à Vara da Infância e Juventude, no qual será entrevistado por uma equipe técnica, composto por assistente social e psicólogo, que farão visitas domiciliares, além de passar por uma capacitação para se habilitar e ser incluído no SNA.

“Você que deseja adotar, não precisa ser rico ou casado, você precisa ter vontade de ser pai ou mãe, e ter afeto para dar, e estar disposto a se preparar para isso. Não podemos romantizar a adoção. Criar alguém dá trabalho, e adotar é mais trabalhoso ainda, pois você vai criar e amar uma pessoa que já tem uma história pregressa, que sofreu um abandono, maus tratos, e isso é uma demanda a mais para ser trabalhada, mas tudo isso pode ser superado com amor, disciplina, aprendizado, informação e ajuda de profissionais, se for necessário. 

Quem pode adotar?

Qualquer pessoa maior de idade e idônea pode adotar, sem a necessidade de ser casado. A adoção pode ser feita por homens, mulheres, casais héteros e homoafetivos. “O mais importante é avaliar a capacidade afetiva e de cuidado que esse pretendente tem, se ele quer ser um pai ou mãe, se tem tempo e se tem preparo para isso. É isso que a equipe técnica irá avaliar”, reforça Francimélia Nogueira, coordenadora do Cria. 

O papel do Cria

O principal papel do Cria é de discutir sobre adoção. Nesse sentido, há um grupo que reúne pretendentes e pessoas que desejam adotar, juntamente com pessoas que já adotaram a fim de realizar troca de experiência.

“É muito relevante, pois prepara o pretendente e empodera quem já adotou para resolver alguns problemas. O Cria disponibiliza assistente social e psicólogo tanto no pré como na pós adoção, e outras atividades envolvendo a sociedade, como caminhadas, panfletagens, encontros estaduais de adoção. O Cria funciona de 8h às 17h, ininterruptamente, para que cada adoção seja segura, legal e para sempre”, diz Francimélia Nogueira. 

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