Governo confirma estado de alerta em 4 municípios banhados pelo Rio Marataoan

Em José de Freitas, algumas famílias insistem em permanecer às margens da Barragem do Bezerro.

09/04/2018 16:00h - Atualizado em 09/04/2018 20:29h

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A Secretaria de Estado da Defesa Civil anunciou, nesta segunda-feira (9), estado de alerta para as comunidades que vivem às margens do Rio Maratoã (Marataoan) em quatro municípios - Cabeceiras do Piauí, Barras, Batalha e Esperantina.

A orientação da secretaria é que as famílias deixem suas casas, pois o rio, que já estava cheio, está recebendo uma grande vazão de água da Barragem do Bezerro, no município de José de Freitas.

Em José de Freitas, algumas famílias insistem em permanecer em suas casas, às margens do reservatório, que pode se romper a qualquer momento (Fotos: Jailson Soares / O DIA)

Uma força-tarefa comandada pela Defesa Civil, tenta impedir o rompimento do reservatório, que ameaça dezenas de outras famílias que residem nas proximidades na barragem.

Segundo o diretor do Instituto de Desenvolvimento do Piauí, Geraldo Magela, na manhã de hoje o nível da água na barragem baixou 8 centímetros, o que teria sido possível justamente pela vazão da água para o Rio Maratoã.

Vitorino Tavares, diretor da Secretaria de Defesa Civil, confirmou à reportagem do portal O DIA, na tarde desta segunda-feira, que o estado de alerta foi estendido para os outros quatro municípios citados, por onde o Rio Maratoã passa.

"Foi dado esse alerta, para que as pessoas que moram às margens do Rio Maratoã procurem um local seguro, por conta da possível cheia do rio. Independente de haver ou não rompimento, o rio está tendo sua vazão aumentada, em função da água que está descendo do açude do Bezerro", afirma Vitorino Tavares.

Em Barras, o restaurante Flutuante já foi inundado pelas águas do Rio Marataoã.

As duas fotos acima são da cidade de Barras. A primeira mostra um restaurante inundado pelas águas do Rio Maratoã, enquanto na segunda aparece uma equipe de reportagem trabalhando próximo à Ponte do Pesqueiro. Pela imagem é possível ver como o nível da água do rio está elevado (Fotos enviadas por leitores do portal O DIA)

Esperantina está em estado de alerta

Em Esperantina, a prefeita do município, Vilma Amorim, afirmou que equipes da Prefeitura estão atuando desde a tarde desta segunda-feira nas comunidades que estão em risco iminente de enchente. Com a ameaça de rompimento da Barragem do Bezerro, várias ações estão sendo articuladas por equipes das secretarias municipais do município, com apoio de populares e entidades civis para colher informações e alertar os moradores em caso de evacuamento das áreas de risco.

Equipes da Prefeitura de Esperantina se reuniram na tarde desta segunda-feira. (Foto: Ascom/Prefeitura de Esperantina)

"Como nós recebemos água do [rio] Longá, precisamos ficar em alerta. Diante disso, estamos nos mobilizando, montando equipes e pontos de apoio", destaca a prefeita. Uma equipe de assistentes sociais e agentes de saúde irá visitar os moradores de comunidades ribeirinhas para averiguar a situação nesses locais. A Prefeitura disponibiliza aos moradores de Esperantina um canal para quaisquer esclarecimentos ou informações a respeito de possíveis alagamentos no município, através do número (86) 3383-1719.

Em José de Freitas, algumas famílias recusam-se a deixar suas casas

Mesmo com toda a mobilização do Exército, do Corpo de Bombeiros e de órgãos do Governo do Estado e da Prefeitura de José de Freitas, muitas famílias insistem em permanecer em suas casas, embora estejam cientes do risco que correm. 

Uma das moradoras, Maria do Rosário Amorim, que vive há cerca de 25 anos no entorno da barragem, disse à reportagem d'O DIA vai permanecer na sua casa. Ela afirma que o marido trabalha numa plantação de cana-de-açúcar situada próximo à residência onde moram, e por isso não podem deixar a residência, mesmo depois de a prefeitura ter dito que levaria os móveis da casa para onde a família fosse.

A dona de casa Maria do Rosário (ao centro) se recusa a deixar a sua casa. (Foto: Jailson Soares/O Dia)

A casa de Maria do Rosário fica na rua Jacob de Almeida, num local conhecido como "balão da barragem", que fica bem ao lado da represa, e que será um dos primeiros a ser tragado pelas águas, caso o rompimento de fato ocorra. Ainda assim, ela acredita que terá tempo de fugir, se o pior ocorrer.

A moradora acredita que terá tempo de fugir, se o pior ocorrer. (Foto: Jailson Soares/O Dia)

As famílias que vivem em áreas vulneráveis estão sendo levadas para casas de parentes ou para escolas da rede pública. Como é o caso das famílias dos lavradores Francisco Barros de Oliveira e Francisco Pereira dos Santos. Ambos são moradores de comunidades no entorno da barragem e foram conduzidos, junto com as suas famílias, para o Caic de José de Freitas.

Francisco Pereira dos Santos (ao centro) saiu de casa só com a roupa do corpo. Francisco Barros de Oliveira (à esquerda) passou mal ao saber que teria que deixar seus animais. (Foto: Jailson Soares/O Dia)

Francisco Pereira dos Santos foi um dos moradores que só saiu com a roupa do corpo. Ele conta que ao chegar em casa, na comunidade Sol Nascente, todos os moradores já haviam sido evacuados. "Eu vim [para o Caic] no meio da chuva de bicicleta, não trouxe nada, só trouxe meus documentos e mais nada. Quando cheguei em casa, até minha mulher já tinha saído", conta o lavrador. Nos 40 anos em que vive na zona Rural de José de Freitas, Francisco Pereira afirma que essa foi a primeira vez que teve que abandonar a sua residência por causa do risco de enchente. 

"Só trouxe meus documentos e mais nada", diz morador da comunidade Sol Nascente. (Foto: Jailson Soares/O Dia)

Já Francisco Barros de Oliveira é vizinho de Maria do Rosário na rua Jacob de Almeida. Ele conta que saiu de casa com a ajuda de equipes do Exército, deixando para trás apenas uma geladeira, uma TV e uma mesa. "Se a água vier vai levar tudo, porque não tenho condição de ir buscar", lamenta o lavrador.

Além dos bens materiais, a iminência de perder as 40 galinhas que cria no seu quintal, fez com que o lavrador tivesse um mal-estar e precisasse de atendimento médico. "Eu passei mal, porque eu não tinha para onde levar elas, mas quando foi ontem meu filho e meu amigo foram lá em casa buscar e agora eu 'tô' melhor", conta.

Seu Francisco Barros passou mal ao saber que teria que deixar suas galinhas. (Foto: Jailson Soares/O Dia)

Apesar da correria, a preocupação dos dois Franciscos é só uma, perder o bem mais precioso, a vida. "Se a gente tivesse dormindo e de madrugada estourasse, não ia escapar ninguém. A gente fica preocupado, mas pelo menos está todo mundo vivo", diz o vizinho de Maria do Rosário.

Cerca de cem pessoas trabalham em José de Freitas na retirada das famílias e realizando outras ações destinadas a minimizar os possíveis danos provocados por uma eventual ruptura da Barragem. Além da Defesa Civil, também participam da força-tarefa o Exército, o Corpo de Bombeiros, o Instituto de Desenvolvimento do Piauí (Idepi), a Secretaria de Infraestrutura (Seinfra), a Secretaria do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Semar), o Instituto Federal de Educação do Piauí (IFPI), entre outras entidades.

A força-tarefa é composta por vários órgãos municipais e estaduais. (Foto: Jailson Soares/ O Dia)

Em torno de 70 famílias já foram removidas de locais de risco em José de Freitas, mas o diretor Vitorino Tavares reconhece que ainda há famílias em locais ameaçados. Ele ressalta que, em situações extremas, os agentes públicos estão autorizados a remover as pessoas mesmo à força. "Não deixa de ter algumas pessoas que optaram por ficar. Há pessoas que desafiam o risco, mas estamos orientando todas a deixar suas casas, se estiverem ameaçadas", afirma Vitorino. 

Sangradouro feito na Barragem do Bezerro. (Foto: Jailson Soares/ O Dia)

O prefeito de José de Freitas, Roger Linhares, afirma que os servidores da prefeitura escalados para atuar na força-tarefa foram orientados a retornar às casas onde as famílias insistem em permanecer, para tentar convencê-las do perigo que estão correndo.

Em José de Freitas, nos casos em que as pessoas optam por ficar em suas casas, os moradores são orientados a assinar um termo de responsabilidade, declarando ter consciência dos riscos em caso de rompimento da barragem e da responsabilidade em caso de quaisquer incidentes.

O gestor comemora o fato de o nível da barragem ter diminuído alguns centímetros, e diz ter esperanças de que o rompimento não vai acontecer. 

O prefeito acompanhou os trabalhos na tarde hoje e visitou a casa de moradores do entorno da barragem. (Foto: Jailson Soares/O Dia)

"Apesar da chuva de ontem [domingo] à noite, o nível da barragem já diminuiu um pouco. Aqui no sangradouro, o fluxo de água está muito forte, e a gente tem torcido pra chover pouco nos últimos dias. Nós recebemos a informação de que aumentou um pouco o buraco no paredão da barragem, mas eu acredito que a situação está estável, mesmo porque a pressão da barragem tende a diminuir, já que a quantidade de água está reduzindo, por meio do sangradouro", avalia o prefeito Roger Linhares.

Veja fotos:


Posto faz campanha para ajudar famílias

Uma rede de postos de Teresina está realizando uma campanha para ajudar as famílias que foram retiradas de suas casas às pressas, por conta do risco de ruptura da represa. Os interessados em fazer doações podem levar colchões, cobertores, lençóis, água, alimentos não perecíveis, materiais de limpeza e de higiene pessoal. 

Os produtos podem ser entregues nos postos Cacique Kennedy, em frente à Apcef (Associação do Pessoal da Caixa Econômica Federal) ou no posto Cacique Iguaçu, ao lado do prédio da empresa Guanabara na BR 343.

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Por: Cícero Portela e Nathalia Amaral

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