Home office: modalidade veio para ficar, tem suas vantagens, mas exige disciplina

O trabalho remoto foi uma saída para a crise, mas acabou se tornando uma modalidade de serviço que veio para ficar.

14/09/2021 12:20h - Atualizado em 14/09/2021 12:31h

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Quando em março de 2020 a pandemia de covid-19 começou a se alastrar pelo Brasil, foi inevitável o fechamento de escolas e centros comerciais. Sem ter como trabalhar na modalidade presencial por causa do risco de propagação do coronavírus, muitas empresas apostaram na modalidade de serviço home office para continuar funcionando. O trabalho remoto se tornou uma saída para a crise, mas acabou se tornando um modelo de trabalho que veio para ficar, segundo o que afirmam os especialistas.

Prova disso é que mesmo depois da desaceleração da pandemia, do avanço da vacinação e da reabertura de diversos setores, ainda há empresas que permanecem com o trabalho remoto porque encontraram nele uma forma de reduzir custos mantendo o ritmo de produção. Isso depende, é claro, da natureza do serviço que é prestado. Se for um trabalho possível de ser feito à distância, o home office se torna uma vantagem tanto para o empregado quanto para o empregador.

No caso do analista de sistemas Thiago Aranha, que trabalha como coordenador contábil em uma desenvolvedora de softwares, o home office significou redução de custos e possibilidade de se aproximar mais da família. Ele começou a trabalhar de casa em 15 de março de 2020 e até hoje, mesmo depois da reabertura de diversos setores, segue na mesma modalidade.


Para Thiago Aranha, home office significou redução de custos e possibilidade de se aproximar mais da família - Foto: Assis Fernandes/O Dia

“Trabalhamos com prefeituras e geralmente vamos aos municípios fazer visitas técnicas, mas até novembro não fizemos nenhuma viagem. Era tudo por acesso remoto, fazendo reuniões online. Quando deu uma diminuída, a gente começou a ir presencial seguindo todos os protocolos, mas quando deu aquele boom do vírus de novo em abril, a gente retrocedeu”, explica.

A adaptação ao home office, ele conta, foi um baque porque pegou todo mundo de surpresa, mas, com o tempo, a rotina foi se estabelecendo. Só que junto com ela, outras questões começaram a surgir: é que as interrupções do dia a dia em casa podem acabar interferindo no trabalho se alguns limites não forem impostos.

“O convívio em casa ficou melhor, eu pude me aproximar mais da minha família, mas você tem que se desdobrar porque às vezes seu filho não entende que você está no horário de trabalho. A gente também se sente um pouco mais pressionado até pela questão dos horários, porque quer queira quer não tem alguns clientes que pensam que já que a gente está em casa, pode atender em qualquer horário. Tem que manter o mesmo equilíbrio do ambiente de trabalho, porque senão começa a ultrapassar os horários convencionais”, diz.

Empresas avaliam positivamente o home office

Um ano e meio após a chegada do covid-19 ao Brasil e da reviravolta que o vírus causou no funcionamento de determinados setores, há empresas que ainda permanecem funcionando na modalidade home office porque a natureza de seu serviço permite e também pelas economias que esta modalidade de trabalho traz para as finanças de alguns empregadores.

Para Armstrong Oliveira, sócio-proprietário de uma desenvolvedora de softwares em Teresina, manter seus colaboradores trabalhando de casa teve um impacto positivo nos custos de algumas despesas e o balanço deste um ano e meio de home office tem sido animador.  “Podemos destacar que está sendo positivo. Para a empresa foi bom, porque houve redução de alguns custos e para os funcionários, o fato de eles estarem mais próximos da família também ajuda muito. Isso sem contar a economia no deslocamento deles até o serviço o que, para a empresa, diminuiu os atrasos”, explica.

Dentre os benefícios da modalidade home office que ele elenca estão a economia de energia na sede da empresa, economia com despesas como viagens, hospedagens, combustível e manutenção de veículos e também a economia com material de expediente. Estes são alguns dos aspectos que fizeram Armstrong optar por aguardar que todos os seus colaboradores e familiares de convívio diário com eles tenham recebido as duas doses da vacina contra a covid para poder retornar ao serviço presencial.


Foto: Assis Fernandes/O Dia

“Trabalhar de casa é fazer um acordo com a família”, diz especialista.

Se por um lado, o home office implica em redução de gastos com transporte e otimização do tempo, por outro ele exige certos sacrifícios por parte de quem atua na modalidade. Para que o funcionário mantenha a mesma produtividade do trabalho presencial é preciso alguns esforços como ter disciplina e, principalmente, fazer a família entender que mesmo estando em casa, a pessoa está trabalhando e indisponível para interrupções externas.

Conforme destaca a gestora em recursos humanos Carine Paiva, o primeiro passo para se ter um home office produtivo é ter um lugar adequado dentro de casa para trabalhar e fazer um acordo com a família para que ela entenda que você está em casa, mas está de serviço, e evite interrupções desnecessárias. “Por lhe ver em casa, sempre alguém vai te pedir para abrir o portão, pegar alguma coisa e esquece que você não está disponível naquele momento. Parece óbvio, mas tem que chegar e falar que está comprometido com o trabalho e precisa de concentração e silêncio”, diz.


Carine Paiva dá dicas de como aumentar a produtividade no home office - Foto: Assis Fernandes/O Dia

A vestimenta, segundo Carine, também é outro aspecto que ajuda na produtividade do home office. É importante usar para trabalhar em casa o uniforme ou a mesma roupa que se usaria no trabalho presencial para remeter à rotina que se tinha antes e ajudar a processar que, naquele momento, a pessoa está atuando como um profissional em serviço.

“Tem que estabelecer uma rotina sem deixar de ter disciplina. O home office funciona muito bem e se você entender o seu perfil profissional, fizer os acordos necessários. Se tiver foco no que está fazendo, ele funciona ainda melhor”, finaliza Carine.

Impor limites também é importante

Adaptação rápida. É assim que a professora e mestra em Administração, Marissol Lopes, define o home office. Para ela, trabalhar de casa se torna um verdadeiro teste para os profissionais que atuam na modalidade. É saber dosar as interferências externas com a concentração e produtividade, mas, também, lidar com pressões muitas vezes exacerbadas.

No entendimento dela, quando o home office surgiu como solução no mercado de trabalho frente à pandemia, muitos empregadores “perderam a mão” por achar que seus colaboradores estavam disponíveis 24 horas por estarem trabalhando de casa. Isso acabou gerando uma certa pressão a mais no funcionário e o desencadeamento de transtornos como estresse e ansiedade, que foram ainda mais agravados pelo isolamento social.

Para Marissol, a carga de horário excessiva acaba se tornando uma das principais desvantagens do home office. Soma-se a ela a cobrança que o funcionário tende a exercer sobre si mesmo para produzir mais e mais como se isso fosse necessário pelo simples fato de ele não estar trabalhando in loco.

“Por estar trabalhando em casa, muitas vezes a pessoa acaba se ligando no serviço no horário de intervalo, durante as refeições. Os próprios empregadores tendem a ligar depois da hora de expediente pedindo relatórios e avisando de reunião. Pode haver uma certa falta de empatia e lá no começo até houve. É importante lembrar que as leis trabalhistas não mudaram no sentido do home office e que o funcionário só pode ser cobrado em equivalência com o que ele seria cobrado se estivesse trabalhando presencialmente. Nada além disso”, finaliza Marissol. 

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