Famílias desabrigadas relatam medo de contrair Covid-19: “temo pelos meus filhos”

Na próxima sexta-feira (04) completa um mês da transferência das famílias, da Vila Apolônia para as escolas municipais

28/01/2022 10:06h - Atualizado em 28/01/2022 12:20h

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Na próxima sexta-feira (04), completa um mês que Raniele Cardoso, de 23 anos, teve que sair de casa. Ela, o marido e as duas filhas são uma das cinco famílias que foram transferidas para Escola Municipal Minha Casa, no bairro Matadouro, na zona Norte de Teresina. A residência da família foi atingida pelas fortes chuvas que atingiram a Capital no início deste ano. Autônoma e com o esposo desempregado, a jovem não vê a hora de poder retornar para casa. Com o crescimento de casos e internações nos leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) por Covid-19 no Piauí, a família teme contrair a doença.

Raniele Cardoso, moradora que precisou deixar sua casa na Vila Apolônia. Fotos: Assis Fernandes/ODIA

“Eu não me sinto segura em relação à Covid vivendo nesta escola. Recebemos máscaras, álcool em gel, mas eu temo por ter contato com outras pessoas apesar dos protocolos. Minha filha mais velha já pegou e teve febre de mais de 43 graus. E agora com os números cada vez mais altos, eu tenho medo de contrair e temo pelos meus filhos”, disse.

Raniele morava na Rua 4, no bairro Vila Apolônia. Devido à força da água, ela teve a casa condenada pela Defesa Civil e aguarda repostas para voltar para casa. “Ainda não recebi nenhuma informação de quando eu vou poder voltar. Perguntei para os coordenadores da Prefeitura, mas ninguém soube informar. Inclusive, teve uma família que tomou a iniciativa para voltar, mesmo com a casa condenada. Me desculpa, mas eu acho que vou fazer isso. Aqui na escola estamos abrigados, mas em casa temos a nossa privacidade e podemos educar os nossos filhos dentro de um lar. Isso para mim é muito importante”, disse. 

Raniele conta ainda que, após o nascimento da filha mais nova, que tem sete meses, teve depressão pós-parto. E por estar morando em escolas da capital, não teve mais acesso aos remédios para o tratamento da doença. 

 “O sentimento é de tristeza porque sofro de depressão pós-parto e ansiedade. Estou sem medicação e só recebo promessas porque, para isso, precisa de receita, mas ninguém apareceu. Uma assistente social pegou essas informações, mas não trouxe o remédio. Têm horas que bate uma angústia e desespero por não estar dentro da nossa casa, perto de um familiar para me auxiliar. Dormimos em um local e amanhecemos no outro. Assim fica muito difícil”, finaliza.


“Estamos comendo só o básico mesmo”

Quem também está prestes de completar um mês vivendo em escolas é Giltomar Rocha Santos. No dia 5 deste mês, O DIA fez uma entrevista com a família dele, que estava abrigada na Escola Antônio Dílson Fernandes, no bairro São Joaquim. Eles perderam tudo na enchente.

Família de Giltomar Rocha pede doação de colchão de casal em abrigo de Teresina. 

“Vai completar agora um mês que estamos fora de casa. Ainda não tivemos uma reposta concreta da prefeitura para voltar para casa. Estamos recebendo as cestas básicas, mas não está vindo ovos, nem carne e nem frango. Como estamos desempregados, estamos comendo só o básico mesmo”, conta.

Giltomar relata ainda seu medo de contrair Covid-19. Por causa das complicações do vírus, ele já ficou internado por 30 dias na UTI do Hospital de Urgência de Teresina (HUT). “Eu tenho medo de contrair a Covid-19. Eu sou portador de doença crônica e tive Covid no ano passado. Tive complicações da doença e passei 30 dias na UTI no HUT. Com esses novos casos, ninguém sabe se é Covid ou gripe porque são os mesmos sintomas, mas graças a Deus até agora ninguém testou positivo e as crianças estão bem”, disse.

A saudade e vontade de voltar para também apertam no peito, segundo o autônomo. “A nossa casa, por mais simples que seja, é o lugar que a gente se sente mais à vontade. As assistentes sociais passam, mas não trazem os remédios da gente. Eles sabem dos nossos casos, mas até agora não resolveram nada”, desabafa.

A família pede ainda a doação de um colchão de casal, pois o que está sendo utilizado foi recuperado durante a enchente. "Fomos buscar, mas está todo danificado por causa das chuvas. Quem poder doar pode entrar em contato com a escola".

Outro lado

Procurada pela reportagem, a Secretaria Municipal de Cidadania, Assistência Social e Políticas Integradas (Semcaspi) informou que a intenção é inserir as famílias no aluguel solidário, através do programa Cidade Solidária, para liberar as escolas, mas tem encontrado dificuldades para encontrar famílias acolhedoras e residências para alugar. Questionado se o problema estava relacionado à Covid-19, o secretário Allan Cavalcante negou. Além disso, o gestor ressaltou que as equipes da Semcaspi têm atuado para realizar a entrega dos kits (acolhimento, limpeza e higiene) as famílias cadastradas pelas SAADs.

Em relação às casas, o gestor afirmou que “a prefeitura tem procurado recursos junto ao Governo Federal para a construção de algumas casas para que esse retorno aconteça o mais rápido”, informou.


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Já a Superintendência das Ações Administrativas Descentralizadas Norte (Saad Norte) informou que tem atuado juto à Semcaspi e Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação (Semduh) para dar apoio às famílias no deslocamento para unidade escolares e cadastro para benefícios. 

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