Marcha da Maconha retorna às ruas de Teresina após dois anos de pandemia

O movimento tem como principal objetivo disseminar informações a respeito da Cannabis, trazendo debates que envolvem a luta pela liberdade do cultivo e direitos humanos.

24/08/2022 14:37h - Atualizado em 24/08/2022 15:03h

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Com o tema, “O conhecimento liberta”, a Marcha da Maconha de Teresina volta às ruas neste sábado (27), após dois anos de pandemia da Covid-19. O movimento social tem como principal objetivo disseminar informações a respeito da Cannabis, além de questionar o proibicionismo, trazendo debates que envolvem a luta pela liberdade do cultivo e direitos humanos. 

A Marcha da Maconha busca disseminar informações à respeito da planta (Foto: Reprodução/Instagram)

Atualmente, a Cannabis vive um momento singular desde a sua proibição no Brasil. Por um lado, o uso da maconha medicinal para tratamento de diversas doenças movimenta R$ 130 milhões por ano no país. Por outro, muitos brasileiros são condenados por terem sido detidos com pequenas quantidades da planta. 

Hoje, cerca de mil pessoas possuem habeas corpus preventivo que permite o cultivo e o consumo da maconha para tratar doenças como Epilepsia, Autismo, Parkinson e Alzheimer. Aproximadamente cinco mil médicos prescrevem a planta no país, além de existirem diversas associações que produzem o Óleo de Canabidiol (CBD) a partir do cultivo da maconha. 

 A Marcha da Maconha acontece em todo o Brasil desde 2006 (Foto: Reprodução/Instagram)

No Brasil, é possível adquirir produtos e medicamentos à base de Cannabis, ação regularizada pela Anvisa em 2019. Porém, o cultivo da planta segue proibido e criminalizado, indo na contramão de países como Estados Unidos, Canadá, Colômbia e Uruguai, que já regulamentaram o uso da maconha para fins medicinais e recreativos, o que gera uma grande renda para a economia.

Diante deste cenário, a Marcha da Maconha, que acontece em todo o Brasil desde 2006 e em Teresina desde 2012, busca conscientizar a população sobre o tema, fazendo com que as pessoas passem a se questionar: “Porque uma planta que traz tantos benefícios ainda é proibida?”.


A proibição está atrelada a motivos raciais, políticos e econômicos

Integrante da organização da marcha, a advogada criminalista e Presidente da Associação Cannabis Cura, Bluna Margareth, defende que o debate sobre a maconha envolve não só a legalização do seu uso medicinal e recreativo, como também diz respeito ao encarceramento da população negra e periférica, uma vez que pretos e pobres são os mais condenados por tráfico - e com pouca quantidade de maconha.

“Hoje, mais de 40% dos detentos são presos por tráfico de drogas e isso diz respeito a uma parte específica da população: pobres, pretos e periféricos. Os grandes traficantes não são presos. Você vê cocaína sendo carregada em avião presidencial e nada é feito. Mas, um "Joãozinho" que mora na Vila Irmã Dulce e é pego com cinco papelotes de maconha, é preso e condenado a oito anos de prisão. Isso é um grande disparate. A Marcha da Maconha serve justamente para mostrar essa realidade e trazer o debate público sobre o tema. Queremos que a sociedade pense e se questione em relação a isso”, explica a advogada. 

A advogada criminalista Bluna Margareth defende que o debate sobre maconha deve incluir temas sociais como racismo (Foto: Arquivo Pessoal)

Outro ponto a ser abordado pela Marcha da Maconha de Teresina é: “A planta é proibida para quem?”. Isso porque, pessoas de grande poder aquisitivo conseguem, facilmente, adquirir um óleo medicinal da planta, mesmo com os valores elevados no qual são vendidos atualmente no país. Entretanto, o mesmo não acontece com pessoas periféricas e que precisam do óleo para o tratamento de doenças. 

“Querendo ou não, a maconha já é legalizada para as pessoas que têm dinheiro. Um empresário tem condições de comprar um óleo de maconha por R$ 2.500, ele pode pagar uma consulta de R$ 700 com um médico prescritor. Mas, essa mesma oportunidade não é dada para as pessoas de baixa renda, para mães de filhos autistas, ou pessoas que têm pais com alzheimer”, comenta a Presidente da Associação Cannabis Cura. 


Luta contra o proibicionismo

Outro ponto a ser abordado pela Marcha da Maconha é em relação ao proibicionismo das drogas e dos efeitos que esse modelo político causa à sociedade. Segundo a organização do evento, historicamente já foi provado que proibir não funciona. A Marcha da Maconha busca bater de frente com ideias conservadoras e preconceituosas quando o assunto são as drogas. 

A Marcha da Maconha bate de frente com ideias conservadores e preconceituosas (Foto: Reprodução/Instagram) 

“A luta pela descriminalização da maconha e de outras drogas é de fundamental importância para uma busca na melhoria de políticas públicas sobre drogas. Descriminalizar é primeiro passo para lutar contra o encarceramento em massa, uma política de controle social e herança de um Estado escravocrata, que aprisiona jovens negros e periféricos sob a desculpa da guerra às drogas, que não combate à violência e nem o tráfico”, diz a organização da Marcha. 


Legalidade do movimento

A manifestação conta com o apoio dos órgãos públicos e também é regulamentada juridicamente. Bruce Carvalho, que faz parte da organização jurídica da Marcha da Maconha de Teresina, destaca que existe todo um processo para que não haja truculência por parte da polícia durante o evento. “É necessário a confecção de um ofício, que é enviado para Strans, Polícia Militar, OAB e Prefeitura de Teresina, a fim de cientificar os órgãos competentes”, afirma. 

A livre manifestação pela legalização da maconha é um direito assegurada pela constituição (Foto: Reprodução/Instagram) 

Segundo ele, é importante que seja assegurado a livre manifestação do movimento. “Antes de termos a ação direta de inconstitucionalidade (ADI) que assegura a nossa manifestação, ela já ocorreria em todo o Brasil. Porém, havia batidas policiais, truculência e muitas pessoas eram presas apenas por estarem na manifestação”, acrescenta. 

Para Ana Carolina, artesã e integrante da organização do evento, a marcha não é sobre fumar maconha, mas algo muito mais profundo. “A manifestação não é só para as pessoas irem fumar maconha, nosso movimento é além disso. Queremos levantar nossa bandeira e fazer com que os órgãos públicos vejam essa questão. Nós marchamos pela ciência, pela legalização, pela saúde e por tudo isso que a cannabis proporciona para a gente”, pontua. 


O Evento 

A manifestação acontece no dia 27 de agosto e terá início com uma concentração no Parque da Cidadania, localizado Centro de Teresina, às 16h20. Às 17h, os manifestantes seguem em direção à Praça da Liberdade. 

O encerramento da manifestação contará com diversas apresentações artísticas e culturais, além de feirinhas de artesanato e praça de alimentação. 

A fim de obter mais recursos para a realização do evento, a Marcha da Maconha também confeccionou camisas com artes que foram criadas pela artista local Alessa Alencar. Para adquirir, basta entrar em contato com o número (86) 995016085. 

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Edição: Adriana Magalhães

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