Parque Brasil: após reintegração de casas, 240 famílias vivem em condições precárias

As famílias estão vivendo em casas de lona próximas a uma lagoa no bairro Poty Velho

27/08/2021 12:22h - Atualizado em 27/08/2021 16:21h

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Após 16 dias do cumprimento da reintegração de posse dos imóveis da Caixa Econômica Federal, no Residencial Parque Brasil, zona Norte de Teresina, que aconteceu no dia 11 de agosto, as famílias despejadas ainda não receberam nenhuma assistência por parte da Prefeitura de Teresina. Cerca de 240 famílias e mais de 200 crianças precisaram desocupar as casas depois que a Polícia Militar foi acionada. No confronto, gás de pimenta e balas de borracha foram utilizadas para dispersar os invasores.

Larissa Oliveira foi uma das pessoas que precisou desocupar o imóvel invadido. Ela, que está grávida de sete meses, o esposo e mais três filhos, entraram em uma das casas na madrugada de sábado (07/08), porém, quatro dias depois, foram surpreendidos com a ordem de despejo. 

(Fotos: Assis Fernandes/ODIA)

“Eu passei uns cinco dias, quatro dias sem energia, quando eu consegui colocar, no dia seguinte eles vieram e mandaram eu tirar tudo. E fiquei praticamente no meio da rua. Não tínhamos para onde ir”, conta.

A jovem explica que, até o momento, a Prefeitura não ofereceu nenhuma assistência para sua família e as demais pessoas que participaram da invasão do Residencial Parque Brasil. De acordo com Larissa, um cadastro foi feito, de forma a averiguar quantas famílias estavam no local, mas que não passou disso. Larissa está em uma casa emprestada, no bairro Poti Velho, também na zona Norte. Porém, o imóvel está à venda e sua família só poderá ficar no local por mais dois meses. 

“A mulher [proprietária do imóvel] já está em acordo tentando vender aqui e deixou eu ficar por mais dois meses, porque vou ter neném em novembro. Eu tenho que procurar um lugar com conforto, logo que aqui não é meu, não posso ajeitar. Por isso estava tentando conseguir a casa lá [Parque Brasil] e já estava até me acostumando. Aqui não tem banheiro, usamos o lá dos fundos, não tem quintal para as crianças brincarem. Não temos dinheiro para alugar uma casa porque meu marido está desempregado”, conta Larissa.

Com o marido desempregado e dependendo somente do que recebem do Bolsa Família, eles aguardam um posicionamento da Prefeitura. “Eles fizeram o cadastro de todos que invadiram as casas e estamos esperando o que o Dr. Pessoa vai dizer. Queria que ele me ajeitasse logo antes da minha menina nascer. O Bolsa Família dá mal pra comer, porque o gás está caro, e só dá para pagar umas continhas na quitanda e ainda fica devendo. Não dá para comprar as coisas das crianças e ainda não comprei nada do enxoval. Estou esperando a ajuda do Dr. Pessoa, se ele me ajudasse a ganhar uma daquelas casas ali”, complementa Larissa Oliveira.

Larissa Oliveira disponibilizou telefone de contato para quem deseje lhe ajudar com o enxoval e alimentos. (86) 99525-6079.

“É uma situação muito deprimente”, diz advogada que acompanha o caso

A advogada Tatiana Medeiros, que está acompanhando o caso, conta que mais de 240 famílias foram afetadas com a reintegração dos imóveis, sendo que há mais de 200 crianças, inclusive com deficiências, além de idosos. Atualmente, estão em um terreno no bairro Poty Velho.

“Hoje essas famílias não têm apoio nenhum. Larissa tem três filhos, está grávida, morando precariamente e sem apoio nenhum. Conheço outras famílias que estão morando embaixo da lona, praticamente dentro da lagoa porque realmente não tem para onde ir, pois estão desempregadas e não têm condições de custear um aluguel. Eles não têm para onde ir, é uma situação muito deprimente, pois a maioria dessas casas não tem nem banheiro”, disse.

A advogada conta que a Prefeitura de Teresina prometeu analisar os cadastros, mas, até o momento, não deu nenhum posicionamento para as famílias. Tatiana Medeiros destacou também que o Ministério Público do Piauí está acompanhando o caso e deu um prazo de 30 dias para que essa análise seja feita, sob pena de multa. 

“Estou indo até à Semduh para termos algum posicionamento. Vamos cobrar e não vamos deixar o caso esfriar.  Tivemos uma audiência pública e foram levantadas todas as questões das famílias e feitos cadastros. Realmente as pessoas estão necessitando, principalmente aquelas que têm crianças, sendo oito com deficiências, além de idosos. Diante dessa situação, o que nós pedimos  foi que a Prefeitura fizesse um filtro dessas pessoas que estão necessitando e a Caixa Econômica desse agilidade nesse processo, porque não justifica centenas de casas fechadas e centenas de famílias na rua. Pedimos bom senso, que se coloquem no lugar dessas famílias”, comenta.

Contraponto

O PortalODIA.com entrou em contato com as assessorias de Comunicação da Semduh (Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação) e do Programa Lagoas do Norte, para obter um posicionamento sobre a situação das casas do Residencial Parque Brasil.

De acordo com a Semduh, o órgão intervém em casos de ocupação irregular para restabelecer a ordem e no cadastro e sorteio das famílias. Entretanto, o restante do processo fica a cargo da Semplan e Programa Lagoas do Norte.

O Programa Lagoas do Norte informou, por meio da assessoria, que os imóveis são de responsabilidade da Caixa Econômica Federal, que gere o Programa ‘Minha Casa Minha Vida’, e que todas as casas do residencial já têm seus devidos proprietários. Na sexta-feira (06), foram entregues 30 imóveis, e, nesta semana, mais 53 imóveis. Além disso, estão sendo preparados para serem entregues mais 20 imóveis, de acordo com o cronograma de entregas.

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