Tempo de vento e pipa: brincadeira volta a divertir adultos e crianças em Teresina

O brinquedo feito de papel de seda, bambu e fibra, faz alegria não só de crianças, mas também dos adultos que transformaram a atividade lúdica em uma tradição.

02/06/2022 08:54h - Atualizado em 02/06/2022 10:11h

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O mês de junho marca a diminuição das chuvas e o início dos ventos em Teresina. Para os mais velhos, o “tempo dos ventos” é ideal para uma brincadeira milenar, mas que voltou a ganhar adeptos nos últimos anos na Capital, a pipa ou papagaio. O brinquedo feito de papel de seda, bambu e fibra, faz alegria não só de crianças, mas também dos adultos que transformaram a atividade lúdica em uma tradição. É o caso do autônomo João Ronaldo de Araújo, 42 anos. Para ele, todo o ano é tempo de pipa.


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Foto: Assis Fernandes/O Dia

“A paixão veio do meu irmão que sempre gostou muito da brincadeira. Eu fui crescendo sempre com o pensamento nessa brincadeira. Aqui no bairro Monte Castelo, por exemplo, tinha acabado essa questão de pipa, naquele tempo a gente conseguia tirar o bambu da cerca de um vizinho, tinha um pessoal que vendia, mas com o avanço da cidade, isso foi se afastando e as pessoas foram deixando de fazer as pipas por causa da dificuldade em encontrar o material”, relata.

Com o desenvolvimento da cidade e o avanço das tecnologias, as brincadeiras de rua foram substituídas pelos equipamentos tecnológicos, como celulares e computadores, e, aos poucos, as ruas, que antes eram tomadas por grupos de crianças, foram sendo esvaziadas. Com isso, os adultos foram os responsáveis por retomar a tradição e voltar a trazer para o céu da Capital as cores do papel de seda, além de despertar nos mais jovens o amor pela pipa. Segundo Ronaldo, a incorporação das varetas de fibra na confecção das pipas foi uma das facilitações que proporcionou o retorno da brincadeira.

Foto: Assis Fernandes/O Dia

“O uso da fibra veio de São Paulo e do Rio de Janeiro, justamente por causa dessa dificuldade em encontrar a tala de bambu. Com isso, voltamos a fazer as pipas e a soltar na rua, e isso foi chamando a atenção de outras pessoas que tinham deixado a brincadeira em outros bairros. Então, fomos nos organizando e formamos o grupo Pipeiros de Teresina. Hoje, nós organizamos festivais e nos reunimos todos os domingos para soltar pipa”, destaca o pipeiro.

João Ronaldo faz parte do grupo Pipeiros de Teresina, que atualmente conta com mais de dois mil membros, entre adultos e crianças, que se reúnem semanalmente para soltar pipas. Os encontros acontecem todos os domingos, a partir das 8h da manhã, no Parque Lagoas do Norte, zona Norte da Capital. Por ser um espaço aberto, o local garante a segurança não apenas dos praticantes do esporte, mas também das pessoas que transitam nas proximidades. 

Ronaldo garante que o grupo segue todas as recomendações para a prática segura do esporte, em especial a proibição do uso do cerol, uma mistura de cola de madeira com vidro moído usada nas linhas das pipas. Devido ao alto potencial de corte, o cerol é responsável por acidentes graves e, até mesmo, fatais. “Nós temos a autorização da prefeitura para isolar a área, porque independente da linha cortar ou não, se você passar a certa velocidade, pode causar algum acidente, então a gente prioriza o cuidado e a segurança”, afirma.

Foto: Assis Fernandes/O Dia

O pipeiro destaca ainda a importância da brincadeira com pipas para a promoção da cidadania. Por isso, um dos objetivos do grupo é garantir inclusão de jovens em situação de vulnerabilidade, proporcionando uma alternativa de lazer e esporte que seja capaz de tirar crianças e adolescentes da criminalidade. 

“Quando começamos a nos reunir no Parque Lagoas do Norte, era um local que tinha um índice de criminalidade muito alto, era um local muito perigoso e víamos muitos jovens usando drogas. Começamos a chamar esses meninos pra brincar com a gente, justamente para tirar eles da criminalidade”.

Mesmo com todo o trabalho social desenvolvido pelo grupo, Ronaldo também destaca as dificuldades enfrentadas para popularizar ainda mais o esporte, como o preconceito que os pipeiros ainda enfrentam no dia-a-dia. 

“Ainda sofremos preconceito, mesmo o nosso grupo sendo composto em sua maioria por pessoas mais velhas, muitos ainda passam e percebemos o preconceito pelo olhar. O nosso foco é a questão social, queremos ajudar não só os de fora, mas também os próprios membros do grupo, porque sabemos que muitos ainda passam necessidade e a pipa foi o que nos conseguiu trazer uma renda, principalmente com a pandemia”, finaliza.

Piauí teve 342 ocorrências de falta de energia por pipas na rede elétrica em 2021

A despeito de ser uma prática tradicional e momento de lazer, empinar pipa também traz alguns riscos quando a prática é executada sem que alguns cuidados sejam tomados. No Piauí não são raros episódios de falta de energia por conta de pipas presas na fiação elétrica. Dados da Equatorial Piauí apontam que só em 2021, foram registradas 342 ocorrências de pipa na rede de transmissão. 

A grande maioria dos casos, pelo menos 230 ocorrências, se deram entre os meses de junho e julho. As outras 70 ocorrências foram registradas nos demais meses do ano. Chama a atenção o fato de que pelo menos 90% dos casos tenham ocorrido em Teresina. Aqui na capital, é mais comum registros de pipas na rede elétrica em bairro mais afastados do centro e em regiões de morro, onde alguns grupos costumam de reunir para fazer campeonatos.


Foto: Equatorial Piauí

O engenheiro de Estudo e Desempenho de Operações da Equatorial Piauí, Eduardo Abreu, explica os riscos que empinar pipa próximo a rede elétrica trazem tanto para a infraestrutura de distribuição de energia quanto para quem pratica o esporte. “O maior risco é o de choque elétrico. Porque muitas vezes o material se utiliza para fazer a rabiola das pipas são metálicos, aqueles filmes de fitas antigas, que quando entram em contato com os fios podem causar um curto-circuito”, diz.

Ele orienta as pessoas que soltam pipa a procurarem áreas mais afastadas de prédios e residências e, principalmente, regiões mais afastadas de redes elétricas e postes. Eduardo lembra que o cerol presente na linha das pipas também pode causar acidente em motociclistas e demais transeuntes que porventura não consigam enxergar o objeto e podem acabar se cortando fatalmente. Daí a importância de se empinar pipa em locais menos movimentados.

“A gente pede que as pessoas tenham cuidado não só por si, mas também pelos outros. Pipa na rede elétrica causa interrupção do fornecimento. São escolas, hospitais, residências e comércios que ficam sem energia e podem ter perdas enormes por conta de uma atividade simples e aparentemente inofensiva. Fora que para quem solta a pipa, também há riscos de choque”, finaliza Eduardo.

Em casos de pipa presa na rede elétrica, a Equatorial Piauí deve ser acionada para fazer a retirada com segurança. Não é recomendável que as pessoas subam em postes ou tentem desprender a pipa sem os equipamentos adequados sobre riscos de sofrerem acidentes fatais.

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