“A gente queria um lugar para chamar de nosso”, diz mãe de família desabrigada em Teresina

Famílias estão há três meses aguardando uma definição sobre para onde devem ir já que escolas que as recebem devem iniciar as aulas em abril.

01/04/2022 13:48h - Atualizado em 01/04/2022 14:02h

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Dormir e acordar todos os dias com a sensação de que algo está errado e fora de lugar. Indefinição e o cansaço da espera. Estas sentenças definem a situação das famílias desabrigadas por conta da chuva em Teresina. São mães e pais, filhos e netos que foram retirados de seus lares contra a própria vontade e que se viram imersos em um cenário de indefinição e completo deslocamento. Vivendo em escolas transformadas em abrigos coletivos, eles se sentem hoje ocupando um espaço que sabem que não é deles nem para eles.

Junto à incerteza sobre o que farão daqui para frente e para onde irão, estas famílias vivem um dia após o outro aguardando qualquer retorno do poder público para poder tocar suas vidas. Não podem sequer planejar o futuro já que até o agora se parece um gigantesco ponto de interrogação. 


Foto: Assis Fernandes/O Dia

A situação se torna ainda mais angustiante porque as escolas que recebem estas famílias desabrigadas precisam ser desocupadas para o retorno das aulas presenciais na rede pública municipal. Retorno esse que já havia sido adiado anteriormente por conta da pandemia. A Escola Municipal Minha Casa, no bairro Mocambinho, por exemplo, deve retomar com as atividades presenciais já na semana que vem e ainda tem cinco famílias desabrigadas aguardando saber para onde serão levadas até lá.

Uma destas famílias é a da dona Iraci de Oliveira, 44 anos. Mãe de três filhos, ela morava de favor na casa da própria cunhada no bairro Boa Esperança, zona Norte de Teresina. Nas fortes chuvas que caíram em janeiro deste ano, a residência foi condenada pela Gerência Municipal de Defesa Civil por estar em área de risco e a família de dona Iraci teve que sair de lá e ser encaminhada para uma escola que estava funcionando como abrigo coletivo temporário.


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Era a Escola Municipal Antônio Dilson Fernandes, no bairro São Joaquim. Eles ficaram lá até o final de janeiro, mas tiveram que deixar a escola porque o local seria ponto de aplicação de prova do concurso da Polícia Militar. De lá, dona Iraci e sua família foram remanejados para a Escola Municipal Minha Casa, no Mocambinho, onde vivem desde então.


Foto: Assis Fernandes/O Dia

Junto com eles, há mais cinco famílias na mesma situação na Escola Minha Casa ainda aguardando definição da Prefeitura sobre para onde devem ir. A expectativa é que até o final da semana tenham essa resposta. Mas o que dona Iraci espera de verdade, além de saber o que fará de sua vida, é poder ter a própria casa e não mais ocupar espaços que não sejam seus de verdade.

“A gente não quer ir para abrigo porque já é a segunda vez que a gente vai para um. Acho que a gente merece ir para uma casa. O prefeito [Dr. Pessoa] esteve no Colégio Dilson Fernandes e falou que ia dar uma casa para a gente, mas até agora estamos esperando e nenhuma resposta. Não se sabe se vamos para casa ou para outro abrigo. Estamos na espera e precisamos de um retorno, porque isso tudo é muito ruim. A diretora quer a creche para os alunos estudar e a gente se sente ocupando um espaço que não é nosso. Eu me sinto mal”, desabafa dona Iraci.


Dona Iraci foi alojada em uma escola com a família - Foto: Assis Fernandes/O Dia

Morando já três meses em uma sala de aula, a família de dona Iraci vem vivendo das doações que recebe de terceiros e também da cesta básica que a Prefeitura envia por meio da Semcaspi (Secretaria Municipal de Cidadania, Assistência Social e Políticas Integradas). No entanto, essa cesta não chega a durar o mês inteiro. Resta à família economizar onde pode. 

Dona Iraci define a própria situação como desesperadora e cansativa. Nem poder exercer o próprio ofício como vendedora de verdura ela tem conseguido porque não tem como comprar os produtos para revendê-los como fazia antes de ser despejada por causa da chuva. A renda do marido, que vive de fazer bicos, é o único ganha-pão da família.

“A  gente tem que agradecer porque dormimos e acordamos vivos, mas não é nada bom. A gente precisa muito de uma moradia, a gente quer morar numa casa nossa, não importa onde. É muito ruim você viver em um lugar e sentir que está incomodando”, finaliza dona Iraci.


Foto: Assis Fernandes/O Dia

A família dela está precisando de doações de alimentos para complementar a cesta básica fornecida pela Prefeitura. As doações podem ser feitas diretamente na escola municipal Minha Casa, na Rua Rui Barbosa, Matadouro.

Escola já perdeu quase 50 alunos por causa da demora no retorno às aulas

A Escola Municipal Minha Casa, no bairro Mocambinho, zona Norte de Teresina, já perdeu 47 alunos do início do ano até agora por conta da demora no retorno às aulas presenciais. A unidade atende a crianças do 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental e vinha funcionando em ensino remoto. Quando se preparava para voltar a funcionar no modo presencial, começou a receber as famílias desabrigadas pela chuva na região do Mocambinho.

Ao todo, a escola começou 2022 com 280 crianças na faixa etária de 6 a 10 anos e hoje conta com 243. São estudantes que migraram para outras unidades de ensino público nas proximidades ou que migraram para a escola privada. A Escola Municipal Minha Casa deve retornar com as aulas presenciais já na primeira semana de abril. Até o final desta semana, cinco famílias que ainda vivem no local devem ser remanejadas para outros locais.


A Escola Minha Casa está recebendo famílias desabrigadas em Teresina - Foto: Assis Fernandes/O Dia

Nesta semana, o comitê emergencial criado pela Prefeitura para monitorar áreas de risco de alagamentos em Teresina se reuniu para discutir a situação das famílias desabrigadas e encontrar soluções para a situação. Participaram do encontro o secretário municipal de Defesa Civil, Carlos Ribeiro, e o secretário de Educação, Nouga Cardoso, já que a maior parte das famílias está alocada em escolas e precisam ser retiradas dos locais para retorno das aulas presenciais.

O superintendente Daniel Carvalho, da Superintendência das Ações Administrativas Descentralizadas (SAAD Norte), destacou que as famílias só vão ser retiradas das escolas quando outros locais forem escolhidos pela Prefeitura de Teresina para abrigar essas pessoas.

“Tivemos essa reunião para discutir a questão das famílias que estão abrigadas nas escolas municipais, somente na zona Norte três unidades de ensino estão acolhendo os desabrigados. As escolas precisam ser liberadas para o retorno das aulas. Estamos trabalhando e procurando uma solução junto com a Prefeitura de Teresina”, detalhou o superintendente da SAAD Norte.

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