Sem equipe nas escolas, mães de crianças autistas têm que assistir aula com os filhos

Mãe denuncia que são 25 alunos na mesma situação em Teresina, onde escolas municipal estão sem equipe multidisciplinar para ajudar na inclusão de alunos especiais.

11/08/2022 07:43h

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“O desenvolvimento do meu filho está prejudicado e ninguém toma uma providência para ajudar”. A frase é da trabalhadora autônoma Iannara Pereira de Sousa, 33 anos, e reflete a revolta de quem vê o próprio filho ter o acesso à Educação Básica prejudicado devido à falta de uma equipe multidisciplinar em sala de aula para ajudá-lo a acompanhar as matérias junto com os demais alunos.


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Iannara tem um filho de 13 anos diagnosticado com TEA (Transtorno do Espectro Autista). Ele cursa o Oitavo Ano do Ensino Fundamental na Escola Municipal Parque Piauí, no bairro de mesmo nome na zona Sul de Teresina, e precisa ter o acompanhamento de um profissional capacitado e dedicado exclusivamente a auxiliá-lo na aprendizagem em sala de aula. A realidade, no entanto, não é esta.

Iannara relata que a escola tem cerca de 25 alunos especiais, mas que não há nenhum cuidador ou cuidadora para acompanha-los. Quando há, é apenas um profissional, número insuficiente para fazer o trabalho a contento e garantir que os estudantes tenham um desenvolvimento educacional satisfatório. 


Foto: Reprodução/Google Maps

“O Centro de Inclusão tem sete cuidadoras e uma profissional para Língua de Sinais. São três pela manhã, para auxiliar 10 a 15 alunos, e três para auxiliar à tarde de 8 a 10 alunos. Três auxiliares são muito pouco e desde o início das aulas que não apareceu nenhum. No Centro de Inclusão disseram que iam disponibilizar as vagas, mas até agora não deram prazo”, relatou Iannara.

De acordo com ela, o ensino e aprendizagem de seu filho já vêm sendo prejudicado desde antes do começo das aulas. Somados a pandemia e a greve dos professores da rede municipal, que já dura mais de 170 dias, são dois anos e seis meses de atraso educacional. Iannara diz que seu filho regrediu na escrita e na leitura desde então e que esse retrocesso não está sendo recompensado agora com o retorno das aulas devido à falta de um auxiliar capacitado.


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“Eu tenho que estar em sala de aula com meu filho, porque ele está prejudicado há dois anos e seis meses. Isso tem prejudicado inclusive minha renda, porque eu sou trabalhadora autônoma e preciso fazer uns bicos para ter um extra. Como eu vou trabalhar se tenho que acompanhar meu filho na escola todo dia porque não tem um cuidador? Se eu deixo ele lá, não demora pouco a diretora me liga dizendo que ele está dando trabalho, que está atrapalhando os coleguinhas. Precisa de alguém para sentar, conversar com ele, orientar sobre o que é certo e errado e não tem quem faça isso na escola quando eu não estou”, desabafa Iannara.

“Só porque meu filho tem TEA não significa que ele tenha que ficar preso em casa”, diz mãe

Outra mãe que está enfrentando dificuldades no ensino e aprendizagem do filho devido à falta de uma equipe multidisciplinar nas escolas de Teresina é Naizia Gaspar. Mãe de uma criança de 12 anos diagnosticada com TEA que estuda na Escola Municipal Santa Fé, ela também precisa estar na sala de aula com o filho para ajudá-lo a acompanhar as aulas porque não tem um profissional capacitado para atuar nesse sentido.


Foto: Reprodução/Whatsapp

Naizia conta que o filho tem dificuldades com a fala e que precisa de alguém qualificado para conseguir compreendê-lo e facilitar a comunicação interpessoal. Por conta disso e da falta desse profissional, o desenvolvimento educacional de seu filho vem sendo prejudicado. “Ele está no Quinto Ano do Ensino Fundamental e precisa desse acompanhamento para continuar se desenvolvendo, mas se eu saio de perto, parece que a coisa toda para. Nós como mães e trabalhadoras infelizmente não temos tempo integral disponível e ele está na escola, um local que em tese devia zelar pelo bem-estar e ajudar meu menino. Mas não é isso que acontece”, desabafa Naizia.

Ela acrescenta ainda que a situação só reforça o preconceito para com as pessoas diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e compromete as chances de elas terem um futuro digno. “Só porque meu filho é autista não significa que ele tenha que fica preso em casa. É uma criança como outra qualquer, tem que socializar com outras crianças e ser inserido. É um direito que está sendo tirado dele e isso eu não tenho como admitir”, dispara Naizia.


Mães são obrigadas a ficar na sala de aula com os filhos por causa da falta de cuidadores - Foto ilustrativa: Assis Fernandes/O Dia

O outro lado

A reportagem do Portalodia.com procurou a Secretaria Municipal de Educação (Semec) de Teresina para questionar sobre os motivos de as escolas da rede municipal estarem sem auxiliares para acompanhar e incluir as crianças e adolescentes com TEA em sala de aula. Por meio de nota, a Secretaria informou que realizou a seleção para auxiliares de apoio à inclusão e já começou a encaminhar os profissionais para as unidades de ensino. “Todos os alunos que possuem a necessidade de um acompanhante na rotina escolar receberão esse apoio”, diz a nota.

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