Tentar salvar outra pessoa e achar que sabe nadar são causas comuns de afogamento

Em uma semana, oito pessoas morreram vítimas de afogamento e a dinâmica dos casos é praticamente a mesma.

06/09/2022 09:46h - Atualizado em 06/09/2022 11:11h

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As últimas tragédias envolvendo duas famílias das cidades de Timon Nazaria, ambas localizadas na região metropolitana de Teresina, reacenderam o debate sobre os riscos do banho nos rios Poti e Parnaíba. Um hábito que era comum em meados da década de 90 e que, aos poucos, vem sendo retomado nas regiões ribeirinhas. Em uma semana, oito pessoas morreram vítimas de afogamento e a dinâmica dos casos é praticamente a mesma: um dos banhistas começou a se afogar e os familiares, na tentativa de salvar, acabaram morrendo da mesma forma. 


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Populares acompanham buscas por crianças afogadas em Nazaria. (Foto: Assis Fernandes/O Dia)

Segundo o coronel Egídio Leite, Relações Públicas do Corpo de Bombeiros do Piauí, 46% das pessoas que passam pelo processo de afogamento sabem nadar. Além disso, tentar salvar outra pessoa e consumir bebidas alcoólicas, também são as principais causas de afogamento. Por isso, é importante fazer um alerta para os banhistas que decidem frequentar as margens ou coroas dos rios durante o período de estiagem, momento em que o nível do rio está mais abaixo e passa uma falsa segurança aos frequentadores.

"Isto é o que predomina nas estatísticas, pessoas que tentam salvar outras, pessoas que consomem bebida alcoólica e pessoas que acham que sabem nadar", diz coronel Egídio.

“Saber nadar fica na dependência de outros fatores, como da força da correnteza. Ainda assim, nadar é uma coisa, salvar outra pessoa já é um processo totalmente distinto, exige um preparo e toda uma técnica. Em Nazaria, uma das mães relatou que não conseguiu salvar os filhos. Ainda chegou a alcançar uma ou duas crianças, mas viu que iria morrer também e não teve como salvar. Isto é o que predomina nas estatísticas, pessoas que tentam salvar outras, pessoas que consomem bebida alcoólica e pessoas que acham que sabem nadar, mas que, como não conhecem as características do local em que estão banhando, terminam sendo vítimas”, afirma o coronel.

Coronel Egídio Leite. (Foto: Assis Fernandes/O Dia)

Nos anos de 2021 e 2022, o Corpo de Bombeiros do Piauí realizou 81 ações de resgate e busca de cadáver. No ano passado, foram 32 resgates de vítimas de afogamento e 28 ações de busca e salvamento de cadáver. Já neste ano, foram 15 resgates de vítimas de afogamento e seis busca e salvamento de cadáver. O baixo índice registrado esse ano se deve ao período de estiagem, momento em que há aumento dos casos, ainda estar no início.

Bombeiros de Timon buscam corpos de família que morreu afogada. (Foto: Assis Fernandes/O Dia)

De acordo com o coronel, por ter uma corporação reduzida, não é possível que o Corpo de Bombeiros atue como guarda-vidas ou faça o monitoramento de toda a extensão dos rios que banham Teresina. Em Timon, por exemplo, a família decidiu banhar em uma margem do rio, não em uma coroa, como tem sido mais comum nesse período, o que dificulta mais ainda a atuação da corporação no sentido de prevenir os incidentes. Por isso, é importante que a população fique atenta aos cuidados para evitar que novas tragédias aconteçam.

Bombeiros buscam corpos de pessoas afogadas no Rio Parnaíba. (Foto: Assis Fernandes/O Dia)

“Por uma questão de experiência, não adianta pedir para as pessoas não irem para os rios, porque elas não irão obedecer. Nós estamos no período quente, a umidade do ar baixando e as pessoas vão buscar a prática do banho. Por isso, pedimos que, se for para os rios, tomem os devidos cuidados. Já imaginou quantas coroas nós temos de Nazaria a Teresina? Não tem como dizer que vamos colocar uma equipe dos bombeiros em todos esses pontos aos domingos. Do mesmo modo, não tem como ter um agente do Estado em todos os lugares em todos os momentos, e nós que temos esse efetivo pequeno, menos ainda”, destaca.

Coroas em rios, que atraem banhistas, escondem buracos com grande profundidade

Do mesmo modo, os banhistas devem ficar atentos às características do local do banho. Os bancos de areia, conhecidos popularmente como coroas, são os locais mais escolhidos pelos banhistas da Grande Teresina, em especial no Rio Parnaíba. O Corpo de Bombeiros destaca que, nesses locais, a população deve ficar atenta ao entorno das coroas que podem esconder buracos com grande profundidade.

Coroas atraem banhistas no final de semana. (Foto: Assis Fernandes/O Dia)

“Nem todas as coroas se comportam da mesma forma. Onde temos uma coroa em um ano, não necessariamente depois do período chuvoso nós teremos outra. Em Nazaria, as pessoas atravessam uma pequena lâmina d’água para ir até a coroa, e rio acima tem dezenas de metros parecendo uma piscina natural, com água na altura do joelho. Mas, no que você se desloca para o término da coroa, a profundidade aumenta rapidamente, você está com a água na cintura, dá um passo, e já não sente mais o solo. Com isso, começa o processo de afogamento, em que as pessoas entram em desespero e as coisas terminam em tragédia”, afirma.

Bombeiros fazem buscas em coroa na cidade de Nazaria. (Foto: Assis Fernandes/O Dia)

Na região metropolitana de Teresina, que engloba municípios como Timon, Nazaria e União, são incontáveis os locais escolhidos para a diversão nos finais de semana. Nomeadas em homenagem à famosa praia de Jericoacoara, no Ceará, um dos destinos mais procurados pelos turistas no Nordeste, as principais coroas em Teresina agora são conhecidas como Jericoroa e Jericodipi e estão entre os locais mais procurados pelos banhistas na Capital.

Jericoroa entre Teresina e Timon. (Foto: Arquivo O Dia)

Na Santa Maria da Codipi, zona Norte de Teresina, a Jericodipi é o principal atrativo para quem quer tomar banho no rio e se divertir com a família. Lá, o número de pessoas chega a 300 no horário de maior fluxo, às 14h do domingo. Segundo o gerente do BR BAR, localizado na margem piauiense do Rio Parnaíba, Antônio Celso Peres, a quantidade de frequentadores aumentou nos últimos quatro anos.

Para atravessar para a coroa, o banhista utiliza uma pequena embarcação e paga uma taxa de R$ 6,00. Do outro lado, a faixa de areia com barracas e mesas se estende por até 100 metros. “Nós temos o bar há nove anos e tem quatro anos que a Jericodipi bombou, mas esse ano tem dias que não tem nem mais estacionamento.  A movimentação é maior entre os meses de julho a dezembro. Levamos 15 pessoas na embarcação com os coletes que a Marinha exige, um piloto, um motor e um motor reserva”, explica.

Antônio Celso Peres, gerente do BR BAR. (Foto: Assis Fernandes/O Dia)

Devido às recentes tragédias no Rio Parnaíba, o gerente do estabelecimento afirma que tomou a decisão de reduzir pela metade a quantidade de clientes na coroa. Antes, o bar disponibilizava até 300 conjuntos de mesas, agora são 150 mesas para atender a um público que a cada semana só cresce. “A gente coloca as bandeiras para sinalizar, temos um banner informando e um salva-vidas, mas o problema é que, quando dá 15h e tem umas 300 pessoas banhando, eles furam a barreira”, revela.

Vazia durante a semana, a Jericodipi lota aos sábados e domingos. (Foto: Assis Fernandes/O Dia)

Antônio Celso lembra um episódio em que quase morreu em uma tentativa de atravessar o rio a nado e destacou os perigos da correnteza e da força da água até mesmo para os nadadores mais experientes. Com o intuito de ganhar uma aposta no valor de R$ 100, o gerente conta como quase perdeu a vida e precisou ser salvo por um canoeiro.

"Me ofereceram R$ 100 para atravessar para o outro lado do rio. Foi aquele momento em que fui besta por cinco minutos e quase perdi minha vida", lembra Antônio Celso.

“Se você cair aqui [na margem], é 10 metros de profundidade. Me ofereceram R$ 100 para atravessar para o outro lado, eu peguei o dinheiro, fiquei só de sunga e caí na água. Nadei ainda uns 70 metros, e eu nado bem, mas o meu braço deu uma câimbra, grudou no meu peito e não voltou mais. Eu saí ali depois daquela curva, fui descendo, boiando com dois pés e um braço. Bebi água demais, quem me salvou foi um canoeiro que me pegou e trouxe para a margem. Hoje, se me oferecessem R$ 10 mil, eu não queria. Foi aquele momento em que fui besta foi cinco minutos e quase perdi minha vida”, lembra.

Crianças exigem atenção redobrada

Para pais e responsáveis por crianças, o cuidado deve ser redobrado. O afogamento é a segunda maior causa de morte de crianças no Brasil. O risco é tanto que, nos dois casos de afogamento registrados na última semana, seis das oito vítimas eram crianças. Contudo, vale frisar que não é necessário que haja água com profundidade para que uma tragédia aconteça. Somente este ano, dois bebês de um ano de idade morreram afogados em baldes d’água no Piauí. Estes foram apenas casos veiculados pela imprensa piauiense, mas o número de vítimas pode ser maior.

Crianças brincam em banco de areia no Rio Parnaíba. (Foto: Arquivo O Dia)

 “Pode haver uma vítima fatal a partir de lâminas d’água de centímetros de profundidade, como já tivemos casos recentemente de crianças se afogando em baldes. O que precisa é manter a vigilância constante sobre a criança e sempre usar coletes, porque as boias podem sair ou secar, ficar atento às piscinas. Quem é pai sabe que as crianças exigem uma atenção integral, completa. Às vezes, poucos segundos podem ser determinantes para a ocorrência de um acidente. A diminuição de atos inseguros é que fazem com que diminuam as estatísticas de afogamento”, alerta o coronel Egídio Leite, do Corpo de Bombeiros.

Por isso, é importante que o cuidado seja reforçado, não apenas nos banhos em rios, mas também no dia-a-dia da família. Em especial, em locais onde a criança tem acesso à piscina. Nestes, é importante que o ambiente possua grades e que a criança jamais tenha acesso ao espaço da piscina desacompanhada. Já os recipientes como baldes, banheiras e piscinas infantis devem ser mantidos sempre vazios e, preferencialmente, virados para baixo. Lembre-se que poucos segundos de desatenção com os pequenos podem ser suficientes para que uma tragédia aconteça.

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