“Sinto falta da escola, sonho em ser médico”, diz aluno de 11 anos sobre greve em Teresina

Greve dos professores da rede municipal completou 100 dias esta semana

20/05/2022 15:55h

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Há cerca de dois anos, desde que a pandemia do Covid-19 teve início, o sistema municipal de ensino em Teresina vem colapsando. Hoje, mesmo após termos superado uma difícil fase, a educação continua sendo posta em segundo plano. Escolas sem estrutura, professores em greve e crianças sem aprendizado refletem a má gestão e o descaso do poder público. 

“Eu quero que as aulas voltem, sinto muita falta da escola, eu tenho o sonho de ser médico. Está sendo bem difícil não ter aulas”, diz o pequeno Francisco de Assis, de 11 anos e que está na quinta série do ensino fundamental. O futuro médico estuda na Escola Municipal Professora Thereza Noronha, localizada na zona Leste de Teresina e que, atualmente, não tem aulas para todas as séries devido a falta de professores. 

Sem aulas nas escolas municipais, alunos se sentem prejudicados (Foto: Assis Fernandes/ODIA)

A greve dos professores de Teresina, que reivindicam pagamento do reajuste de 33% no piso salarial, já dura mais de 100 dias. Apesar de apoiarem a causa, muitos pais e mães sentem que seus filhos estão sendo prejudicados pela falta de aulas na cidade. “Nossos filhos estão sofrendo com isso e as famílias também. Como mãe me sinto revoltada, não por conta dos professores estarem lutando por sua valorização, mas porque nossos filhos têm direito à educação. Isso é um descaso e é inadmissível”, conta Francimar Sousa, mãe de Francisco. 


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Francimar Sousa, mãe de Francisco, conta que a situação causa revolta (Foto: Assis Fernandes/ODIA)

Essa questão tem afetado muitas mães que, não tendo com quem deixar seu filho, acabam deixando de trabalhar ou levando a criança para o trabalho. Como é o caso de Lucilene Feitosa, mãe de dois gêmeos de 9 anos. “Eu faço faxina e, por não ter onde deixar os dois, tenho que levar eles comigo. Nos dias em que não vou pra minha faxina, coloco eles para ler. Aquilo que o professor faz eu tento fazer, mas tem coisas que não entendo. A gente se sente triste, aquilo que ele poderia estar aprendendo, não está”, relata.

A situação se complica ainda mais quando envolve as questões estruturais das escolas. Pois além da falta de professores, segundo as mães, na E. M. Prof. Thereza Noronha falta até mesmo lanche para os alunos. “A escola está totalmente sem estrutura para receber os alunos, está sendo reformada ainda e disseram que a merenda ainda nem chegou. Todo o sistema está defasado e precisando ser melhorado. Nós estamos aqui para cobrar um direito dos alunos e nosso enquanto família, de ter educação e educação de qualidade”, afirma Francimar. 


Sem aulas, crianças e jovens acabam ansiosos e desmotivados 

A falta de aulas diariamente, por mais de dois anos, tem causado muita preocupação com relação às crianças e jovens, que estão se tornando cada vez mais ansiosos. Sem aquela interação diária na hora do intervalo e momentos de aprendizado e descontração nas salas de aulas, muitos alunos têm perdido a sua motivação. 

“Meu filho se sente desmotivado, abandonado pelo poder público. Ele fica ansioso demais. A questão prejudicial para essas crianças não pode ser medida: ansiedade, nervosismo e várias questões, o psicológico dele está abalado. Eles tinham aula todos os dias e, de repente, acabou por causa da pandemia”, destaca Francimar Sousa.

Sem aulas, crianças sentem-se ansiosos e desmotivados (Foto: Assis Fernandes/ODIA) 

Além da ansiedade, muitos alunos estão sendo passados de uma série para outra sem terem tido um real aproveitamento de aprendizado. É o que conta Lucilene Feitosa. “Meus filhos estão na terceira série sem ter aprendido nada na segunda série, ele mesmo perguntou o que vai fazer na terceira. Eu fico pensando como essas crianças vão desenvolver seus aprendizados. Como elas vão chegar no futuro e dizer que estudaram? Os professores são essenciais, é através deles que nossos filhos crescem para serem alguém na vida”, pontua a mãe dos gêmeos Yuri Feitosa e Willane Feitosa, que também estudam E. M. Prof. Thereza Noronha. 

Gestão municipal não se manifesta 

O silêncio da gestão municipal sobre os problemas na educação de Teresina tem causado revolta nos pais e alunos. “Porque o prefeito não se preocupou com as escolas estarem preparadas para receber os alunos? Porque ele deixou tudo isso acontecer? Queremos uma resposta”, questiona a mãe de um aluno.


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O presidente da Associação de Moradores do bairro Piçarreira, Sinval Cunha, acrescenta que o prejuízo na educação das crianças não pode ser medido. Ele conta que muitos pais têm o procurado a fim de obter apoio para reivindicar o direito desses alunos. “Nós da associação de moradores entendemos perfeitamente a angústia dos pais e as reivindicações dos professores, mas há um grande prejuízo para esses alunos, além dos dois anos de pandemia que tivemos. O que podemos fazer é apoiar e acompanhar no Ministério Público a situação e aguardar que cheguem em um bom senso”, afirma. 

Presidente da Associação de Moradores afirma que entende a reivindicação dos pais (Foto: Assis Fernandes/ODIA)

A equipe do O Dia procurou a Secretaria Municipal de Educação (Semec), que afirmou que a resolução da greve dos professores é de competência da Secretaria de Governo e Finanças, visto que se refere a questões salariais. Já em relação à falta de lanches na E. M. Prof. Thereza Noronha, a Semec não se pronunciou.

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Edição: Adriana Magalhães

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